[Monitor de desporto - Faro]


Praia da Amoreira - Aljezur


Praia da Amoreira - Aljezur


Interior da Igreja do Carmo - Faro
Não posso deixar de pensar no muito que o Algarve, e o turismo em particular, pode beneficiar através da preservação e valorização do seu património histórico-cultural. O passado foi negligente neste aspecto, inclusive para as obras do mestre Diogo, e o que é feito no presente ainda não satisfaz. É o património que distingue, identifica e fixa a memória de uma região, potenciando a sua atractividade.
Preservar a herança do passado seria hoje o melhor presente para Diogo Tavares que, se por milagre fosse vivo, celebraria este ano o seu trecentésimo aniversário.
Por Nuno Ferreira
José das Neves Moleiros e João Desidério
José acabou por viver 38 anos em Paris. “A princípio, o mais difícil foi adaptar-me à língua. Depois, fui arranjando trabalho no “boca à boca”. Comecei a trabalhar no mais fácil mas nunca imaginei vir a restaurar os monumentos que restaurei”.
A destruição da Iª Guerra Mundial, a poluição, a erosão provocada pelo clima, tudo foi deixando marcas na pedra das obras de arte francesas. “A pedra deles é mais macia, absorve mais a água...”
Os dedos da mão de José das Neves Moleiros não chegavam para contar o número de monumentos que a sua arte de canteiro algarvio e “made in” Bordeira ajudou a restaurar: “Em Versailles, logo à entrada, junto às grades, está trabalho cá do velho. Nas cocheiras do palácio também. E se for à Catedral de Nôtre Dame, procure bem uma «estatuazinha» pequena na parte de trás do jardim. Fui eu que a restaurei”.
O olhar de José brilhava de orgulho. Por perto, mais reservado, o mestre João Desidério escutava a conversa como se não fosse nada com ele. Foi José a ajudá-lo a soltar a modéstia. “Tu João, tu também restauraste muita coisa”. Só em Paris, João trabalhou no restauro da Assembleia Nacional, do Louvre, dos Invalides e do Sacré Coeur. Da grande basílica de Montmartre lembram-se os dois bem, não haveriam de se lembrar. “A pedra do Sacré Coeur era pedra marafada, rija de um raio, mais duro que um ferro...”
Deixei a Bordeira e os canteiros entregues à conversa sobre os futuros museus da cantaria e monumento aos canteiros e fiz-me à imprevisibilidade da estrada. Parti bem mais rico do que quando ali parei, à porta da Junta de Freguesia e na mente ecoavam ainda as palavras de José das Neves Moleiro: “Eles em papel eram mais fortes mas depois na prática a gente éramos os reis”.

Santa Bárbara de Nexe
[O autor também publica crónicas semanais no Café Portugal]
Por Ana SerafimEstendendo o braço pela janela, o condutor e guia, o Sr. Merca, apanha um ramo de esteva. É típica do Algarve e muito usada pelas famílias serranas para atear o lume dos fornos de pão. Na palma da mão, exibe as minúsculas sementes, castanhas escuras que podem ser levadas pelo vento e arruinar plantações mais sensíveis.
Mais à frente, apresenta o cacto Agave, outra das plantas características da serra. «Serve para fazer tequila no México. Aqui, usa-se em corda e sisal das redes de pesca», conta.
E ainda uma amendoeira de amêndoa dura, um dos três tipos existentes na região algarvia. «A amendoeira é a neve do Algarve», brinca, explicando que as suas flores só ficam na árvore cerca de 12 dias. Quando caem, pintam o chão de branco.
Agora, o tom é outro. Na paisagem, predomina o castanho, o verde-escuro, a vegetação rasteira. Sente-se a secura da terra ainda que, ao longe, se veja o Guadiana. «Quando está clarinho, pode avistar-se até Huelva, em Espanha», garante o guia, enquanto serpenteia por caminhos já trilhados pelos árabes.
Nova paragem. Há que conhecer o figo de pita, um cacto verde-claro que pode ter várias utilizações. Serve, por exemplo, para reciclar água porque absorve a sujidade. «Diz-se, na brincadeira, que era usado pelas senhoras como batôn. Às vezes, quando estou em passeios com turistas, tiro a tinta e pinto os lábios. Ficam muito vermelhos», confidencia o Sr. Merca.
Seguimos, até chegar a Cerro do Enho. Mais uma pausa. Esta, imposta. Um rebanho de cabras algarvias, salpicadas de branco e castanho, ocupou a estrada. Têm chifres impressionantes, pelo que o melhor é mesmo ceder-lhes passagem. O olhar espraia-se pelo lugarejo, com as suas casas típicas, brancas, com uma barra azul a dar-lhes cor, a cozinha separada das divisões principais, o forno de pão, os currais, as cisternas que substituem a água canalizada. Por cima de uma ainda há vestígios dos figos que, no pino do Verão, ali caramelizaram ao sol.
Além do pastor, ainda não se viu vivalma. «Aqui, só há um autocarro por semana, se houver. No Verão, nem deve haver nenhum. No Inverno vem buscar as crianças para a escola», descreve o condutor, algarvio de gema. E explica que são as carrinhas que andam pela serra vendendo roupa ou alimentos, que abastecem os habitantes.
Ainda que na época estival a população da região aumente, por causa das férias, na maioria dos casos, as famílias serranas e os mais jovens, partem para trabalhar nas cidades e só voltam anos depois, para reconstruir as casas herdadas. Ou quando a reforma lhes reserva tempo para o descanso.
Com o sol a bater no pescoço – por aqui as temperaturas podem chegar aos 50ºC no Verão, devido à proximidade do norte de África -, o safari serrano continua. Ora em alcatrão, ora em terra, o jipe guina para a direita, numa descida acentuada, que faz contrair a barriga. Sacode os passageiros. «Que tal a massagem?», galhofa o Sr. Merca.
De cima, por entre montes e vales, começa a vislumbrar a cama de água da Barragem de Beliche. Romanzeiras, pereiras, amoras silvestres, laranjeiras de laranja amarga acompanham o caminho. Depois de atravessar um pequeno ribeiro, paragem para esticar as pernas. O sr. Merca dá a cheirar raminhos de poejo e menta.

Na noite da passagem de ano, o meu grupo de amigos resolveu indagar onde haveria uma festa à maneira para irmos dançar um bocadinho e beber um copo. A senhora do café do Cachopo lá nos indicou um baile numa aldeia que ficaria, em linha reta, aí a uns cinco quilómetros dali, mas que, pelas estradas da serra, ficava bem mais longe.
Limpámos as botas carregadas de lama, sacudimos as calças de caminhada para lhes dar um ar mais decente, colocámos uma camisola lavada e lá fomos nós, por montes e vales, até ao dito baile.
Quando entrámos no salão, já depois de sermos olhados meio de lado à porta, fez-se quase um silêncio, enquanto os locais nos observavam.
É que, na festa de passagem de ano daquela aldeia, pelos vistos muito famosa nas redondezas serranas porque estava a abarrotar de gente, todos se vestiam com as suas melhores roupas: elas de cabelos arranjados, maquilhagem, saias compridas e blusas brilhantes, eles de fato, colete e gravata (que iam tirando conforme o calor ou as cervejas bebidas).
E o nosso grupo de quatro pessoas ali estava no meio, com ar de quem tinha acabado de chegar da serra – e tinha! - e alguma lama agarrada às grossas botas de caminhada…
Mas, como as pessoas do campo são generosas, depressa deixaram de olhar para aquele grupo de quase marcianos citadinos e toda a gente continuou a dançar animadamente, ao som da vocalista-organista de serviço, de seu nome Sandrine.
Nós fartámo-nos também de dançar, inclusivamente com algumas das outras pessoas do baile (apesar de as botas não serem propriamente o calçado mais apropriado para danças…). No fim, até fomos pedir autógrafos à vocalista-organista (esclareça-se que, nesta altura, já tínhamos bebido uma boa quantidade de minis…).
O mais difícil da noite acabou mesmo por ser o regresso a Cachopo. É que eu, que era a motorista de serviço, me esqueci do caminho (terá sido das cervejas?...ou da dança?) e resolvi seguir a direito pela serra fora. Isto às 2h30 da manhã daquele dia 1 de janeiro de 2001, sem se ver vivalma nos trilhos serranos… Não dei parte de fraca e fui sempre conduzindo como se soubesse perfeitamente qual era o caminho. Ao fim de hora e meia de subidas e descidas em estradas que não faço a mínima ideia onde ficavam, acabámos milagrosamente por ir dar à estrada alcatroada, a um quilómetro do Cachopo e regressámos à civilização.
Ainda hoje guardo o cartão com o autógrafo da vocalista-organista Sandrine!

Fecho os olhos e imagino toda a azáfama entre caixas de peixe, gritos e alguns eternos protestos pelo preço do pescado “tive tode o dia no mar pá agora ganhar treseuro por caixa. Uns trabalham pa que os ôtres encham o cu”.
Deixo a pescaria e a sua memorável cantilena e sigo pensando que estes homens mereciam um monumento à sua grandeza, tantas vezes ignorada. Também as mulheres deste povo do mar mereciam uma estátua. Uma estátua de uma mulher magra, de mãos calejadas, sentada num banquinho, com sardinhas entre as suas mãos. Seria um símbolo de grandes obreiras.
A minha mente voa até um passado longínquo feito de grande azáfama, de um cais onde entravam e saíam barcos atrás de barcos e as sirenes das fábricas enchiam o ar com o seu apito. Imagino aqueles escravos do mar que eram os pobres marinheiros. E as filas de mulheres entrando nas fábricas. Tudo bulia, tudo era movimento de caixas, de montanhas de peixe, de filas de banquinhos povoados de mulheres, fêmeas pobres cuja única forma de levar um bocado de pão aos seus filhos era trabalhar, horas a fio, nas fábricas de conserva.
Fábricas que eram templos dos senhores que mandavam na pesca, que eram donos dos barcos, das redes, e algumas vezes, senhores do triste destino daquelas pobres mulheres, que à custa de suor e dores nas costas iam enchendo latas de mar.
Senhores que em nada se importavam com seguros ou benefícios sociais que nunca tiveram a bondade de assegurar a nenhum empregado. Muito menos a uma mulher… “era só o que faltava, dar direitos a essa cambada, que nem sabe ler”.
Senhores que à custa de costas doídas, quase quebradas, iam fazendo fortuna, comprando mais e mais casas na vila e na serra, pelos bons ares, e em Lisboa como gente da sociedade. Senhores que compravam propriedades para caçar, fazendo disso desporto, como os nobres.
Penso pois que essa gente humilde e verdadeiramente nobre merecia uma estátua, um monumento. Quantos homens não tiveram de se rebaixar para alimentar a avareza daqueles “senhores feudais”? Quantas casas ficaram sem filhos e quantas mulheres ficaram viúvas, para que os flamantes apelidos dessa classe duvidosa seguissem passando de geração em geração?
Uma escultura seria uma homenagem em forma de monumento, um pedido de perdão pelos pais que deixaram tantos meninos órfãos e sem a mínima ajuda dos armadores desses barcos que os levaram para o fundo do mar sem fim.
Deveria edificar-se uma estátua de uma mulher, sentada num banquinho, voltada de costas para as fábricas, com os olhos postos no horizonte a ver o esplendor do sol mergulhar nas águas da Ria Formosa, por onde correram sangue e lágrimas de tantas e tantas mulheres, que foram por ali secando a saúde, em busca de pão.
Por Torquato da Luz
Durante a estadia em Olhão, a minha mãe, a conhecida Ti Laura Murta, ofereceu uma sardinhada à boa moda algarvia, à porta de casa, debaixo do pinheiro centenário que dava sombra e pinhões deliciosos.
Preparados os dois fogareiros, porque naquele tempo não havia barbecues, as sardinhas foram postas a assar. Saladinha, pão caseiro e um bom vinho tinto para acompanhar. Nada mais, nada menos do que cinco garrafões de cinco litros.
Comendo, bebendo e rindo, a comitiva às duas por três estava grogue. O Luis Piçarra, já com “grãozinho na asa”, decorou o pullover com tintol e como não havia outro para trocar, eu, muito prestável, lavei-o à mão no velho tanque da horta, junto à nora.
Mas ele não foi o único a dar sinal de tinto a mais, pois do outro lado da animada mesa, onde já se cantava o fado à desgarrada, eis senão quando a jovem Lenita Gentil, recém estreada nas lides do espectáculo, não se equilibrou na cadeira e tombou redonda no chão.
Foi levada em braços para a linda cama de ferro pintado de branco, que naquele tempo fazia parte da decoração das casas de campo. Nauseada e desnorteada, por culpa de um copito a mais da conta, a pobre deitou para fora tudo o que tinha entrado. A belíssima colcha de seda branca bordada, que fazia parte do enxoval das moças casadoiras de Olhão, como eu tinha sido, ficou marcada para sempre.
Foi um dia divertido apesar das peripécias. Tudo acabou em bem, tendo o espectáculo sido um sucesso, aclamado de pé, no velho Clube Os Olhanenses, na antiga Rua da Litografia.
Tempos que já não voltam.
Por Odete Coelho

Mas no ano seguinte, voltei à Boca do Rio com a minha nova “filhota”. Uma westie branca e atrevida. De temperamento independente, mal chegámos, desapareceu da minha vista, obrigando-me a gritar em eco o seu nome: “Vidaaaaaaaaaaaa!”.
Reapareceu, toda contente a saltitar pela areia, trazendo atrás de si o tal pastor alemão negro. E atrás dele, o dono. Ao reconhecer-me, pela primeira vez, o homem aproximou-se como se visse uma velha amiga. E, para meu espanto, abraçou-me, dizendo:
“I’m very sorry”.
Atrapalhada pela emoção, tentei explicar em inglês que o meu cão, tão lindo, tão querido, tinha morrido nos meus braços, num Inverno que custou a passar. Segurando-me na mão, o “gringo” apontou a minha cadelinha e disse apenas:
“She is so lovely! Lucky you!”.
Depois, afastou-se com o cão dele, despedindo-se:
“Welcome to our place”.
Certo dia, porém, essa relação mudou, pois o pai ofereceu à mãe uma toalha de plástico. Esse ainda era um tecido desconhecido. Não tinha fio, não amarrotava e limpava-se com um pano, embora derretesse com o fogo. Foi estendida para que todos pudessem admirar o tecido novo. A toalha era branca e em cada canto tinha um cacho de uvas vermelhas e umas parras enormes cor de prata. Um bem tão particular deveria ser usufruído por todos. A toalha deveria ficar exposta num local privilegiado da casa. Ora no corredor havia uma mesa onde ela brilhava e fosforescia. As pontas da toalha quase rojavam o chão. O cão, vagueando pela casa, logo aí encontrou um abrigo. Fui atrás do cão e para meu espanto, aquele era o recinto há tanto procurado. O tampo da mesa constituía um tecto, e cada uma das abas da toalha era uma parede. O quarto de dormir das minhas bonecas, a partir daquele instante, tinha pois quatro paredes. Abri-lhe as camas, coloquei-lhes as mesas sob a mesa do corredor. Era pena que nenhuma das paredes tivesse janela. Só que dentro da caixa da costura havia uma tesoura e com ela se abria uma verdadeira janela numa das paredes. A janela ficou larga e o tecido retirado era a medida da toalha que tapava a mesa das bonecas posta sob a mesa. Alguém podia imaginar maior perfeição? Brincando debaixo da mesa, com um buraco na toalha, via-se as pessoas passarem como se fosse uma verdadeira janela.
[Texto do desdobrável da exposição "O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge. 30 anos de Escrita Publicada", patente no Convento de Santo António em Loulé, até 31 de Março 2011]