quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Queremos ir al Algarbe!

Por Assis Coelho
[Relações Públicas - Turismo do Algarve]

Todos os anos é assim: para além das férias de Verão, as pontes e os feriados são períodos férteis em visitantes espanhóis em todo o Sul de Portugal, concorrendo em número com os turistas portugueses e de outras nacionalidades.
Mesmo em pequenos grupos, nuestros hermanos facilmente se fazem ouvir – mais ainda em pequenos espaços, como um posto de turismo.
Lembrei-me de uma Páscoa passada a trabalhar, há década e meia, então no Turismo de Tavira. Era hora de almoço, os espanhóis davam luta e não desmobilizavam, estava eu a ficar sem fôlego...
Entravam em bando, não podia evitar de atender este jovem casal e mais aquela família bem-disposta, com avós, filhos e netos impecavelmente vestidos. Afinal, era Dia Santo!

Mal entravam, o pedido era certo: “Queremos ir al Algarbe!” Sim, estavam em Tavira mas todos queriam era ir ao Algarve… Enfim, revelada a boa nova, lá diziam ao que vinham: estava um tempo óptimo, era Abril e a praia exercia já um grande poder de atracção sobre os turistas, espanhóis e não só. Queriam praia!

Não admira que tenha passado o Domingo de Páscoa, a festa mais importante para os cristãos – mais ainda do que o Natal – a dar as boas-vindas ao Algarve e explicações sobre como chegar à praia, na Ilha de Tavira.

Um atrás do outro, atrás do outro, a todos a mesma lengalenga e o estômago que reclamava pelo cabrito prometido pela melhor cozinheira de todas – a minha mãe! Mas nesse ano, os sabores de Páscoa tiveram de esperar pelo jantar…


Telhados de Tavira

Histórias até Fevereiro

Já nos enviou uma história? Pense noutra.
Ainda não o fez? Faça-o.
Até 28 de Fevereiro continuaremos a publicar as vossas e as nossas estórias algarvias, divulgando o Algarve de cada um de nós, as suas lendas, o seu humor, as suas cores.

Participe já, mas prepare-se também para participar numa nova iniciativa que arranca em Março.

Mistério….

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ai que ricas uvas!

Por Odete Coelho
[Aposentada - Quarteira]

Há mais de 50 anos, um senhor abastado, meu vizinho nos arredores de Loulé, detentor de enormes propriedades, levava as moças da terra para o ajudar nas vindimas.
Também a mim coube tal importante tarefa…
Bem cedinho, pela madrugada, lá fomos nós até à Ribeira de Algibre apanhar as uvas, que depois iriam ser pisadas pelos pés bem lavados (?) dos homens da terra. Era assim que se fazia o vinho!
E lá andámos nós ao calor, petiscando discretamente um e outro bago de uvas que ajudava a saciar a gulodice das nossas papilas gustativas…
Ansiávamos por chegar ao final das vindimas e ser compensadas com a oferta de deliciosos cachos de uvas de bago miúdo, de uma doçura infinita…
Julgávamos mal…
Ao final do dia, o avarento proprietário sentou-nos à sua mesa na qual dispôs duas bandejas de uvas: uma delas (pequena) com cachos meio pisados e de má qualidade e outra (grande) lindíssima que nos saciava só de olhar… Sim, era mesmo só com o olhar!
O avarento proprietário antes de sair da sala cuspiu em cima da bandeja das lindas uvas dizendo: comam à vontade que eu já volto…



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Boca do Rio

Por Moema Silva
[Jornalista - Lisboa]

Durante anos seguidos, no final do Verão, mantive o hábito de passar uma semana de férias sozinha no Algarve, com o meu cão. Ia sempre para uma hospedaria entre Lagos e Sagres, onde podíamos andar à vontade, nós dois. Um local familiar, em que os animais de estimação são acolhidos de boa vontade. Quarto particular com terraço e acesso directo ao jardim, ou seja, liberdade e segurança para os donos e para os bichos.

A Hospedaria Belo Horizonte, em Almádena, era a nossa base para explorarmos todas as praias da região. De preferência, sem vigilância. Quanto mais selvagens, melhor! Vestido solto com padrão colorido, sandálias havaianas nos pés, um saco grande com um livro, a garrafa de água, os óculos de sol… Tudo o mais simples e confortável possível na bagagem desses memoráveis passeios. Ao meu lado, no carro, o adorável cocker spaniel dourado portava-se como um miúdo a caminho do parque de diversões. Ele já conhecia o trajecto para a nossa “prainha” favorita. A Boca do Rio, situada num vale entre Budens e Salema, nunca era a mesma de um ano para o outro. As marés deixavam-na umas vezes maior, outras vezes mais pequena. Com mais ou menos pedras, conchas, algas. Cheguei a ver vacas a pastar nas margens do rio, que tanto pode desaguar em cheio no mar como virar uma plácida lagoa, com pequenos córregos a sulcar a areia. Cumpria o destino da erosão provocada pela natureza. Mas o meu cão pressentia-a pelo cheiro, quilómetros antes de lá chegarmos.

Quando estacionávamos, saltava, ansioso, porta fora, sem trela, correndo direito ao mar… Que delícia! Nada de veraneantes incomodados com os salpicos, nada de polícia marítima a fazer a ronda… Éramos nós e os turistas estrangeiros, com crianças a brincar nuas, misturadas com outros cães, de raças e tamanhos variados. De porte perfeito, pêlo cuidado e olhos meigos, o meu “menino” fazia sucesso. Muito ciumento, alinhava nos pulos e correrias com os companheiros de ocasião, mas não deixava que nenhum deles se aproximasse de mim. Nem mesmo o simpático pastor alemão negro que, ano após ano, íamos reencontrando com o dono por ali. Um hippie veterano, super bronzeado, que se instalava no local com uma caravana, gozando os longos dias de sol na maior das tranquilidades. Ao cair da tarde, era certo e sabido: ele assobiava a chamar o cão e iam os dois tomar um belo banho, nadando juntos mar adentro. Espectáculo! Nunca troquei com esse senhor mais do que alguns cumprimentos de circunstância, embora nos víssemos todos os anos. “It’s very hot today. Give him a lot of water”- recomendava, acariciando as longas orelhas do meu companheiro. Que, confesso, eu amava como a um filho. No ano em que o perdi, não houve Verão. Eu tinha o coração congelado pela saudade e pela dor.



Mas no ano seguinte, voltei à Boca do Rio com a minha nova “filhota”. Uma westie branca e atrevida. De temperamento independente, mal chegámos, desapareceu da minha vista, obrigando-me a gritar em eco o seu nome: “Vidaaaaaaaaaaaa!”.

Reapareceu, toda contente a saltitar pela areia, trazendo atrás de si o tal pastor alemão negro. E atrás dele, o dono. Ao reconhecer-me, pela primeira vez, o homem aproximou-se como se visse uma velha amiga. E, para meu espanto, abraçou-me, dizendo:
“I’m very sorry”.
Atrapalhada pela emoção, tentei explicar em inglês que o meu cão, tão lindo, tão querido, tinha morrido nos meus braços, num Inverno que custou a passar. Segurando-me na mão, o “gringo” apontou a minha cadelinha e disse apenas:
“She is so lovely! Lucky you!”.
Depois, afastou-se com o cão dele, despedindo-se:
“Welcome to our place”.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Harmonia

Por Lídia Jorge
[Escritora - Boliqueime]

Em Boliqueime o mundo era perfeito. Os pombos voavam pelos telhados e tinham medo dos gatos. Os gatos dormiam pelos poiais e tinham medo do cão. As galinhas tinham medo dos perús com aquele leque. As mulas tinham medo do cavalo que as escoiceava. Essas relações de força eram muito importantes porque os grandes venciam os pequenos e tudo era claro.
Por vezes, porém, as regras eram outras. Assim, o ouriço era mais pequeno do que o cão mas defendia-se, espetando todas aquelas armas. Os gatos eram corpulentos mas fugiam quando em Junho aparecia a cobra. Até o porco redondo e sujo subia pelas paredes quando ela se lhe enrolava na pia. Mas essa era venenosa. Por isso o medo provinha não só do peso do grande mas também do pequeno e venenoso.
Aliás, também entre as pessoas a harmonia era absoluta. A bisavó, que não via, andava devagarinho pela casa e esperava o dia inteiro pela hora em que lhe dessem a pelar os legumes. O marido dela ainda via e mandava nela, fazendo-a calar. Ela obedecia e tinha medo dele. A mãe e as tias tinham medo do pai e dos tios. Todos eles andavam apressados pela casa, muito mais do que os avós, pois esses, a meio da tarde, ficavam pensativos. Assim sendo, era a bisavó que tinha medo de todos, inclusive do cão, da cobra e do peru, e até mesmo do gato quando o abraçávamos e espremíamos. Sentada, imóvel, ela tinha medo de nós mesmos.


Certo dia, porém, essa relação mudou, pois o pai ofereceu à mãe uma toalha de plástico. Esse ainda era um tecido desconhecido. Não tinha fio, não amarrotava e limpava-se com um pano, embora derretesse com o fogo. Foi estendida para que todos pudessem admirar o tecido novo. A toalha era branca e em cada canto tinha um cacho de uvas vermelhas e umas parras enormes cor de prata. Um bem tão particular deveria ser usufruído por todos. A toalha deveria ficar exposta num local privilegiado da casa. Ora no corredor havia uma mesa onde ela brilhava e fosforescia. As pontas da toalha quase rojavam o chão. O cão, vagueando pela casa, logo aí encontrou um abrigo. Fui atrás do cão e para meu espanto, aquele era o recinto há tanto procurado. O tampo da mesa constituía um tecto, e cada uma das abas da toalha era uma parede. O quarto de dormir das minhas bonecas, a partir daquele instante, tinha pois quatro paredes. Abri-lhe as camas, coloquei-lhes as mesas sob a mesa do corredor. Era pena que nenhuma das paredes tivesse janela. Só que dentro da caixa da costura havia uma tesoura e com ela se abria uma verdadeira janela numa das paredes. A janela ficou larga e o tecido retirado era a medida da toalha que tapava a mesa das bonecas posta sob a mesa. Alguém podia imaginar maior perfeição? Brincando debaixo da mesa, com um buraco na toalha, via-se as pessoas passarem como se fosse uma verdadeira janela.


Mas alguém, de repente, estacou em frente da pequena janela. A mãe começou aos gritos, o cão saiu ladrando como se alguém arrombasse a casa, quem estava em casa apareceu num instante com água e panos. Um dos tios não tinha mas era como se tivesse pegado na caçadeira. Aquele iria ser o meu último instante. Alguém me iria matar, eu não teria mais salvação. Também a bisavó avançava devagarinho perguntando que é, que é. E o que é, que é, era eu que havia feito uma horrível imperfeição. Não chorava a mãe, sentada na cadeira? Não a abraçava a tia? O meu castigo iria ser grande, tão grande como aquele que a cobra infligia ao rato. Por isso mesmo só a bisavó, que tinha medo de todos, me levava pela mão. O que iria ser de mim, protegida apenas pela mão da bisavó que não via? Ah! Mas ela ajeitou a minha cabeça no seu colo, protegeu-me dos puxões da minha tia, das invectivas da minha mãe. Ela não me largou enquanto não chegou a noite, e mesmo assim, ela levou-me consigo e deitou-me ao seu lado, e a força da sua protecção foi tão forte que eu percebi que ela era mais forte do que o pai, o avô que era seu filho, os tios todos juntos, a cobra, o cavalo, o cão e o peru. Próximo da sua cabeça que não via, o próprio dia desapareceu sem receio da noite e as suas mãos mostraram um poder desconhecido. Foi, pois, assim. Uma força fez estremecer a harmonia do mundo em Boliqueime, mas uma outra, feita de outra força, aparecia. Para sempre aparecia.

[Texto do desdobrável da exposição "O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge. 30 anos de Escrita Publicada", patente no Convento de Santo António em Loulé, até 31 de Março 2011]

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A lavadeira


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Graças à Internet e principalmente ao Facebook, tenho reencontrado velhos amigos que não via (alguns) desde o tempo do Liceu Nacional de Faro e, para cimentar essas velhas amizades, organizamos de vez em quando um almoço ou jantar onde convivemos alegremente e recordamos velhas estórias do tempo em que, jovens, frequentávamos a mesma escola.
Alguns desses, agora bons e grandes amigos, nem sequer os conhecia nessa altura, mas o nosso elo, o Liceu Nacional de Faro, é tão forte e presente que é como se tivéssemos sido amigos de sempre e nunca nos tivéssemos desencontrado na vida.
Num desses divertidos almoços, reencontraram-se duas amigas que, para além do Liceu, tinham partilhado, na juventude, uma lavadeira. Era costume nesses velhos tempos, nas famílias com uma vida um pouco mais desafogada, ter uma lavadeira que ia a casa lavar a roupa da semana, o que fazia em várias casas, conforme os dias da semana.
E claro que se aproveitava para uns dedos de conversa.
Um dia, a lavadeira, em casa da Manuela, levou a novidade, contada em tom a pender para o trágico:
“Sabe, minha Senhora, o namorado da Milocas foi p’rá tropa, tadinho!”
“Sim? Então e foi para onde?” perguntou a senhora.
“Ê cá nã me lembro muito bem… mas a senhora sabe como se chamava o primeiro homem que houve?”
“Sim, foi o Adão.”
“Atão, e a mulher dele, como é que se chamava?”
“A mulher era a Eva.”
“É isso, minha senhora, ele foi p’ra Évara, tadinho!!!”
Lavadeiras - Algarve, anos 60

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Faro de Leste a Oeste

Por Luis Nadkarni
[Monitor de Desporto - Faro]

Na minha perspectiva as aventuras não são grandes nem pequenas, são aventuras.
Este episódio que se passou comigo no ano de 1964 foi, para mim, uma verdadeira aventura.A minha família tinha-se mudado recentemente para a Avenida 5 de Outubro, deixando a casa onde habitávamos anteriormente, que era propriedade dos meus avós e onde estes continuaram a residir. Essa casa ainda hoje existe em Faro, fazendo gaveto entre a Rua Brito Cabreira e a Rua do Alportel.
Nessa altura os meus pais ofereceram-me um pequeno triciclo que me proporcionou momentos de grande satisfação e possibilitou a descoberta de novas emoções. Certo dia, resolvi ir visitar a minha avó que vivia no outro lado da cidade e, acompanhado pelo meu amigo José Guerreiro da Palma – o Zeca, iniciei esta pequena grande odisseia utilizando como meio de transporte, é claro, o meu triciclo de estimação.

Desci a Avenida 5 de Outubro e junto ao Palácio do Lã virei à direita, entrando na Rua Dr. Cândido Guerreiro. Recordo-me de ter passado por uma oficina de cromagem, ultrapassando posteriormente o perigoso cruzamento da Estrada de Olhão e lá fui pedalando no meu triciclo. Quando me sentia cansado tinha a colaboração do Zeca, miúdo da minha idade, que me acompanhava a pé e que de vez em vez me empurrava. Assim passei o Mercado Municipal, a Serração e, junto à Sapataria Limpinho, virei à esquerda, tendo, um pouco mais à frente, entrado na Rua Brito Cabreira. Até à casa dos meus avós ainda tive de pedalar bastante. Quando lá cheguei foi grande o espanto da minha avó que provavelmente se perguntava sobre como tinham aparecido ali aqueles dois "pára-quedistas".
Recordo esta aventura com satisfação, convicto de que a mesma foi muito possivelmente o que despertou em mim a curiosidade e vontade de experimentar novas situações, o que felizmente tenho vindo a concretizar ao longo da minha vida.

Palácio do Lã - Faro (anos 60)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Tradições dos Reis


Por Turismo do Algarve

Em véspera do Dia de Reis, partilhamos aqui algumas tradições que muitos poderão desconhecer. Para isso socorremo-nos da obra “Natal no Algarve - raízes medievais”, da autoria do Padre José da Cunha Duarte.

“O Dia de Reis (6 de Janeiro) era dia santificado. Ainda hoje alguns países celebram neste dia a festa mais importante do Natal.
Muitas famílias algarvias, da zona marítima e urbana, davam nesta noite as prendas de Natal aos filhos. Como não havia o costume de oferecer brinquedos, as crianças recebiam uma laranja, bolotas veladas, uma libra de chocolate ou castanhas.
A ceia era semelhante à do Natal. Entre as iguarias natalícias encontram-se trutas ou empanadilhas, filhós, bolinhóis, fatias douradas com açúcar e canela.
(…)
No Barrocal (…), era costume deitar três bagos de romã ao fogo para que este se mantivesse aceso durante o ano; três bagos de romã na bolsa do dinheiro para que ele nunca faltasse; três bagos de romã dentro da bolsa do pão ou no saco da farinha, para que nunca faltasse o pão ao longo do ano.”

Na tradição do Reis, esta é a noite dos cantares das Janeiras, com grupos que iam de porta em porta desejando um bom ano. Se já poucos o fazem desta forma, há porém um renovar destas tradições com os encontros de Charolas, em espectáculos que se realizam um pouco por toda a região algarvia nestes primeiros dias do ano.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ano Novo, Novas Estórias


Vamos retomar aqui a publicação de histórias algarvias, continuando o trabalho de partilha de emoções com todos os que vivem e amam o Algarve.
Vamos tentar despertar sentimentos de afinidade com o principal destino turístico de Portugal.
Vamos valorizar a nossa região.
Continuamos a contar com a vossa participação, antigos e novos leitores, que aí desse lado têm com certeza estórias para partilhar, sejam vossas, sejam dos vossos primos, sejam dos vossos tios, sejam dos vossos vizinhos...

Não importa. Só importa que sejam estórias do nosso Algarve.

Votos de um Bom Ano 2011.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Boas Festas

[Clique na imagem para ver o postal]


Aproveite bem o Algarve nestes dias festivos. Voltamos em 2011 com mais histórias e muitos segredos algarvios...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O gato sortudo

Por Corina Justo
[Técnica de Turismo - São Brás de Alportel]

Encontrei há pouco uma fotografia que me fez recuar até ao ano de 1997, quando o posto de turismo de São Brás de Alportel ainda funcionava no desactivado posto da polícia e brigada de trânsito, um modelo de edifício utilizado durante o Estado Novo e que apesar do seu espaço exíguo, era bastante funcional.

Nessa fotografia aparece uma turista de que me lembro bem. Era dinamarquesa e segurava um gatinho de raça aparentemente siamesa.
A senhora tinha encontrado o gatinho errando na estrada e muito preocupada, dirigiu-se ao posto de turismo para solicitar o contacto do veterinário mais próximo a fim de tratar dos documentos necessários para levá-lo consigo para a Dinamarca. O assunto foi resolvido e a senhora voltou ao posto antes de partir para se despedir e mostrar o gatinho já devidamente tratado.

Muitos dos turistas estrangeiros que nos visitam preocupam-se com o bem-estar animal e alguns deles nem hesitam em recolher animais abandonados, que para muita gente ainda parecem ser um problema. Foi o caso desta senhora que recordo com simpatia.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Tio Galinho


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Nasci e vivi até à adolescência, na Rua Dr. Rodrigues Davim, uma das ruas adjacentes ao bairro do Alto Rodes. Lembro-me que a rua não era asfaltada e quando chovia - e se chovia naquele tempo - a água que escorria pela rua, abria grandes sulcos no chão, que dificultavam a passagem.
Costumo dizer que era uma rua abençoada porque ficava exactamente entre a adega do Abel Pereira da Fonseca e a adega do João Pires.
Era uma daquelas ruas típicas em que todos os moradores se conheciam, eram como família, ajudavam-se uns aos outros e principalmente, conviviam.
Desse convívio fazia parte o juntarmo-nos na rua, sentados cada um à sua porta, após o jantar, a apanhar o fresquinho da noite. E, como é óbvio, contavam-se estórias.
Lembro-me de todos os meus vizinhos, dos nomes, das fisionomias, de algumas características - as mais evidentes claro - pois era ainda muito nova para esmiuçar o feitio de cada um.
Desses vizinhos destaco o Tio Galinho, um pescador baixinho que à noite juntava à sua volta todos os miúdos da rua. Contava que uma vez estava a dormir dentro do barco e que tinha vindo uma bruxa que o levara pelo ar, até à Índia. Sim, ele tinha ido à Índia e voltara nessa noite e contava o que vira por lá. E nós, crianças, ouvíamos crédulas, deliciadas e de boca aberta, esta e outras aventuras narradas pelo bom contador de estórias que era o Tio Galinho.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Algarve está com a selecção

Por Pedro Bartilotti
[Programador Allgarve - Faro]

Esta história remonta ao Europeu de Futebol 2004 realizado em Portugal.

Tudo começou com o meu desencanto ao perceber que as iniciativas que estavam a ser realizadas em torno deste evento não continham os ingredientes à altura. Faltava festa, alegria, descontracção, cor… Perante este cenário, lembrei-me então de criar uma personagem baseada num artista que eu na altura representava: o Beto Kalulú.

O primeiro desafio que lhe fiz teve como base a sua imagem de marca. Estou a falar da sua farta cabeleira. Expliquei-lhe a ideia que tinha em mente e perguntei-lhe se tinha algum problema em pintar essa mesma cabeleira com a bandeira de Portugal, ao que ele respondeu sem hesitar que estava 100% disponível.

Seguidamente fui ressuscitar uma música que ele tinha gravado em Londres (estilo remix) e adaptei-a, com uma letra simples e patriótica, ao tema em questão.

Tinha de dar um nome à personagem. Betuga foi o nome que escolhi, uma mistura de Beto com Tuga. O cenário estava a criar forma.

O passo seguinte foi conseguir o apoio de um cabeleireiro e fazer a experiência da pintura da cabeleira. O Cabeleireiro Saint Karl situado no Fórum Algarve foi o escolhido.



Depois de encontrada a personagem, a música e o cabeleireiro, restava arranjar uma forma de dar a conhecer este projecto. Telefonei na altura para a SIC e esta acedeu prontamente a registar todo o processo de transformação do Betuga. A reportagem, com cerca de quatro minutos, passou em horário nobre no jornal da noite e a partir daí foram dois meses sem parar. Televisões, rádios, jornais, etc.

Recordo-me de um dia, quando ao regressarmos de uma ida a Lisboa acompanhados pelas “nossas” cabeleireiras, a dado momento, o Betuga resolve descalçar as suas sapatilhas e colocar os pés no tablier do carro. Até aí tudo bem, não fosse passado poucos segundos começar a sentir-se um odor nada agradável dentro da viatura. Pensei então no que haveria de fazer. Ganhei coragem e disse:
“ Desculpa Beto, mas calça por favor as sapatilhas…”, ao que ele respondeu:
“ O quê? Não pode ser. É impossível… Eu nunca cheirei mal dos pés…”.
Eu disse novamente:
“ Desculpa lá, mas assim que tiraste as sapatilhas sentiu-se logo o cheiro…”.
Betuga aproximou os pés do seu nariz e continuou a afirmar que os seus pés não cheiravam mal. Foi então que abrimos as janelas e realmente o homem tinha razão. Afinal o cheiro vinha da fábrica de celulose… Foi uma risota para todos, incluindo as cabeleireiras que viajavam connosco. Afinal as coincidências acontecem quando menos esperamos e neste caso deu para a boa disposição e alegria.

Teria dezenas de histórias passadas com esta personagem para contar. Talvez as escreva, um dia. Entretanto, fiquem com estas fotos e imaginem o que quiserem…

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O meu Natal

Por Angela Reis
[Técnica de Comunicação e Imagem no Turismo do Algarve]

Eu adoro o Natal. Não pelas prendas, não pelos doces, que também adoro, nem propriamente só pela noite da Consoada, mas por toda a preparação e envolvente que antecede os dias 24 e 25 de Dezembro.
Desde miúda que a minha mãe sempre me incutiu este gosto. Tudo começava no dia 8 de Dezembro, não sei porque razão mas, na minha casa, a árvore de Natal só se montava no dia 8 e retirava-se a 8 de Janeiro. Já tinha lugar cativo na sala, mesmo ao lado do presépio que também era feito por nós, em família. Eu fazia os caminhos em cartolina e colocava sinais de trânsito. Na minha inocência, sem perceber muito bem porque razão não havia carros naquela altura, colocava os sinais para as vaquinhas e para as ovelhas, colocava a estrelinha que guiava os Reis magos e punha areia em volta. Só não havia musgo, porque morávamos na cidade.
Nunca participei nas compras de Natal, nem me chamava a atenção - até hoje é uma das partes que mais me aborrece - mas adorava ver a minha mãe chegar a casa com aqueles embrulhos todos e colocá-los debaixo da árvore, sem nomes, para me baralhar, e levava os serões de volta da árvore a pegar nos presentes e a perguntar:
“É este que é para mim, mãe?”
A resposta, sempre negativa, era como uma facada no meu pequeno coração…
“As prendas dos meninos, são entregues pelo Pai Natal, que só vêm no dia 24 porque até lá está à espreita para ver quem se porta bem e merece o presente, essas que estão na nossa árvore são para os adultos”.
E eu acreditava, até porque nas histórias que via na TV, o Pai Natal só levava prendas para as crianças. E então lá ficava, com aquela ansiedade, a ver a árvore a aumentar e a suspirar para saber se o Pai Natal achava que eu me tinha portado bem…



Chegava então o dia 24. Logo pela manhã, lembro-me de acordar em êxtase para ajudar (ou atrapalhar) a minha mãe na cozinha. O meu pai tratava da comida (isso não me interessava) e a minha mãe tratava dos doces (essa sim, era a parte que me entusiasmava) – as rabanadas, os sonhos, as filhós, o tronco! Eram horas que me enchiam a alma de alegria. Depois começava a chegar a família, sempre sem crianças - eu era a única até aos nove anos, altura em que nasceu a minha irmã - e os adultos começavam com aquelas conversetas de “gente grande” que me aborreciam. Então eu ia ver os filmes de Natal até que me deixava dormir. Raramente ficava acordada até à meia-noite. Às vezes os meus pais acordavam-me, outras nem por isso e a alegria de abrir os presentes durava um pequeno instante do dia seguinte, até porque não recebíamos nem um terço do que os miúdos recebem hoje em dia, mas dávamos muito mais valor ao que recebíamos.
O dia de Natal era passado na casa da minha avó paterna e era como reviver tudo outra vez, mas com outras caras. Boa! Mais presentes, mais doces, mais alegria. E na casa da minha avó era sempre eu quem distribuía os presentes que o Pai Natal tinha lá deixado na noite anterior. Que grande honra!
Depois do almoço e durante muitos anos, o ritual era sempre o mesmo: quer chovesse ou fizesse sol íamos ver o Presépio dos Bombeiros Municipais de Faro e deitávamos uma moedinha para dar sorte para o novo ano e ajudar os mais carenciados. E eu adorava ver as figurinhas e pensar como seria viver ali. Só não percebia porque razão não tinham sinais de trânsito.
Hoje, e já adulta, tento não perder o verdadeiro espírito do Natal e tento que o consumismo não se apodere de mim, pois afinal o que importa é a comemoração desta época tão especial!

Adivinhas - as respostas

Aqui ficam as respostas às adivinhas que publicámos ontem. Quem tentou a sua sorte na caixa de comentários do post anterior apenas acertou em algumas delas.

1 - O qu’é aquilo…Redondo como um capacho, fundo com’um baraço?
Um poço2 - O qu’é aquilo que tem asas e boca maj nã avoa?
Um cântaro
3 - O qu’é aquilo … tava pra passar, mas nã passou; se nã passasse quem passou, passava; mas com’passou quem passou, nã passou?
Um cacho de uvas; um figo - que são colhidos e comidos4 - O qu’é aquilo que corre serros e barrancos com um pedaço de carne na bôca e nã o come?
Um sapato, uma bota5 - Cal é, Cal é … quem nã ad’vinha, besta é?
A cal

Fonte:
LOURO, Estanco - O livro de Alportel. 3ªed. S. Brás de Alportel : Câmara Municipal , 1996. 470 p.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Adivinhas

Por Turismo do Algarve
Hoje propomos aqui algumas adivinhas. São transcritas tal como o autor da sua recolha as grafou, até porque estamos num blogue algarvio…
Quem quiser pode tentar responder na caixa de comentários. Amanhã indicaremos a fonte destes textos e também as devidas respostas.

1 - O qu’é aquilo…Redondo como um capacho, fundo com’um baraço?


2 - O qu’é aquilo que tem asas e boca maj nã avoa?


3 - O qu’é aquilo … tava pra passar, mas nã passou; se nã passasse quem passou, passava; mas com’passou quem passou, nã passou?


4 - O qu’é aquilo que corre serros e barrancos com um pedaço de carne na bôca e nã o come?


5 - Cal é, Cal é … quem nã ad’vinha, besta é?


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Suite das Descobertas

Por Armando Mota
[Maestro e Compositor - Algarve]

Ao longo da minha carreira como maestro e pianista tive vários desafios importantes, mas nenhum se compara com aquele que me foi feito pelo Paulo Neves e pelo Presidente Júlio Barroso. Escrevo música desde os oito anos, tendo feito de tudo, desde música para filmes até óperas para crianças, mas no entanto, uma obra desta dimensão causou-me alguma preocupação e de certeza que faria o mesmo aos mais experientes e consagrados.

Costumo dizer que não se pode escolher o pai ou a mãe, nem o sítio onde se nasce ou morre, mas pode-se escolher o sítio onde se quer viver. Depois de onze anos em Viena e dez em Berlim, e mais uns quantos por essa Europa, decidi fixar-me no Algarve. Embora esta região não apresente uma dinâmica cultural semelhante a Viena ou a Berlim, permite uma vida com qualidade, e sinto que devo colocar a minha experiência profissional e pessoal ao serviço do seu desenvolvimento. É que a minha relação com o Algarve já vem de longe e começou aos oito anos quando vim de férias para Sagres pela primeira vez. Hoje a minha relação com a região é profunda, quase como se aqui tivesse nascido e acresce que eu adoro o mar! Sem poder vê-lo falta-me qualquer coisa que nada deste mundo pode substituir.



A grande dificuldade que senti ao escrever esta obra foi conseguir não a tornar demasiado complexa, fugir ao intelectual e inovador, ao pretensioso e sobranceiro. Nos nossos dias não escrever atonal é quase uma ofensa e corre-se o risco de sermos apodados de conservadores, plagiadores, etc. Pois bem, é com muito orgulho que anuncio que nesta obra grandes mestres da música me ajudaram. De Rachmaninof a Ravel, de Beethoven a Prokoffief. Todos eles me influenciaram. Que me perdoem os meus colegas modernos da música electrónica, os seguidores de Emmanuel Nunes, e tantos outros grandes nomes da música moderna. Tenho o maior respeito pelo trabalho que desenvolvem, mas, depois de passar horas infinitas em Sagres a ouvir o barulho do silêncio e a música do mar, não consigo associar as correntes modernas da música a essa atmosfera única. Quis de alguma forma fazer um “Filme” sonoro em que os ouvintes se pudessem transportar para a epopeia dos portugueses. Tentei fazer uma “sonoplastia” dos sons que os marinheiros poderiam ter ouvido e que se adequasse ao nosso imaginário do século XXI.

Esta foi uma obra feita a olhar o mar, da varanda da minha casa em S. Rafael, a passear em Sagres, e em muitas, muitas horas ao piano. Foi uma honra enorme e um prazer inesquecível ter feito este trabalho. É também para mim a melhor forma de ficar ligado à região e a todos vós.

Sagres

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Gente real ao vivo e a cores


Por Maria João Santos
[Técnica Superior - Direcção Regional de Economia do Algarve]

Era uma vez uma escola secundária cheia de alunos felizes que não usavam computadores, nem tinham dinheiro para comprar roupas de marca e iam a pé, ou à boleia, para a praia de Faro, quando o bom tempo o permitia.
Eram rapazes e raparigas que viviam amizades reais, juntavam-se sem pedir para ser adicionados, surgiam naturalmente e naturalmente iam ficando nas vidas uns dos outros. Tinham em comum a vontade e a alegria de viver. Eu pertenci a esse mundo colorido em que ser igual ou diferente não nos preocupava. Na época, os alunos dessa escola não eram totalmente livres, mas como não se apercebiam dessa situação, brincavam, namoravam e conviviam de forma saudável e feliz. Não… não era o paraíso na terra, nem nós éramos tolos ou santos, mas ninguém naquela idade e principalmente naquele meio, tinha perfeita noção da aparente liberdade.

Perto dessa escola havia a Alameda João de Deus, onde vivi um episódio que sempre recordarei com uma sonora gargalhada. Teria os meus doze ou treze anos e, sempre que não havia aulas, lá estava eu a andar de patins de rodinhas, a jogar minigolfe ou a brincar às escondidas (nessa época a malta brincava até tarde…aliás eu ainda brinco). Em Faro, a Alameda, mesmo em frente à PSP, era o local ideal para tudo isso, incluindo estudar e namorar.

Uma tarde, em que a professora de uma aula de duas horas faltou, a Alameda rodeada por grades verdes serviu mais uma vez para descomprimir. Assim, durante um jogo de escondidas com colegas da minha turma, escolhi o local perfeito para me esconder: o famoso caracol. Era uma zona tranquila, muito bem adornada por árvores e arbustos altos, em que se ouvia o som harmonioso de água a correr e uns bancos de pedra em forma de troncos, quase sempre ocupados por jovens namorados entretidos nos seus afazeres, decoravam o espaço. Escondi-me tão bem que os meus colegas nunca mais me encontravam…e eu fui ficando, ficando…até que chegou um casal de namorados de tal modo entusiasmado que, sem me ver, foi dando asas ao amor …e que asas. Indecisa sobre o que fazer, calei-me muito bem caladinha na esperança que eles se fossem embora e eu pudesse discretamente abandonar o meu esconderijo. O tempo nunca mais passava. Nem eles nem eu, por motivos diferentes, renunciámos ao caracol. Nisto, uma bola, vinda não sei de onde, bateu-me violentamente no rosto e eu, sem querer, gritei de dor. De imediato fui descoberta. O casal interrompeu o beijo que já durava havia largos minutos e, ao afastar os arbustos, deparou-se comigo. Olharam para mim estupefactos e, sem me ajudarem, censuraram o facto de eu estar a espreitar, embora eu não estivesse a espreitar, eu só me tinha escondido dos meus colegas. Bem expliquei, mas o casal já crescido, aí nos seus 18 anos, não foi na minha conversa. Tive que desaparecer a correr, envergonhada e furiosa comigo, com eles e principalmente com os desgraçados dos meus colegas que não me tinham conseguido achar. Ainda por cima levei uma “falta” por ter chegado atrasada à aula seguinte. Amarrei a cara e durante dias não contei nada à malta da turma.
Depois não resisti. Rimos todos à gargalhada!

Algumas semanas após aquele incidente, num domingo, fui levar o meu irmão mais novo à catequese. A aula era numa pequena sala que ficava nos jardins traseiros da igreja da Sé. Qual não foi o meu espanto quando reparei que a catequista era a tal jovem que estava naquele dia, na Alameda João de Deus, toda enrolada com o namorado. Ela reconheceu-me mas não deu parte de fraca, nem eu… Só que nunca mais fui levar o meu irmão à catequese.

Voltei à minha rotina da escola, mas evitei esconder-me no caracol da Alameda. Mais tarde começámos a frequentar a Gardy, na Rua de Santo António, ponto de encontro para amizades mais coloridas e longas conversas divertidas, ao vivo e a cores, com apenas uma bica na mesa do café. Uns anos depois, tal como a catequista, também eu passei a ver o caracol da Alameda com outros olhos…

Jardim da Alameda João de Deus - Faro

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O presépio


Por Luisa Correia
[Documentalista - Turismo do Algarve ]

Por estes dias armam-se os presépios. Lá em casa já tratei do assunto. De uma forma simples, apenas expondo as figuras sob a árvore de Natal, que este ano resolvi fazer a partir de um tronco seco de oliveira. Mas, de repente, deu-me a saudade do entusiasmo com que assistia ao armar do presépio na minha infância. Lembro-me, sobretudo, do presépio que as minhas primas mais velhas armavam na “casa de fora”, que era como se chamava então à sala de entrada da casa, a partir da qual se acedia aos quartos e à cozinha.
Primeiro havia que recolher pedras, areia e musgo. E também murta e pitas. Transportavam-se esses materiais em alcofas de empreita e depois de escolhido o canto da sala para os dispor, começava-se a construção do cenário que havia de acolher as figuras da sagrada família, mas também uma série de outros personagens associados à representação da cena da natividade. Os Reis magos, claro, os pastores e as suas ovelhas, o burro e a vaca no estábulo. Depois, o cenário havia de acolher também os ícones que faziam parte da vida do povo: a igreja, o moinho e o moleiro, a ribeira e a ponte para a atravessar… À verdura colhida no campo, juntavam-se as searinhas que haviam germinado a partir dos grãos de trigo colocados em água, em pequenos recipientes, algumas semanas antes do Natal. Aos poucos era criado aquele maravilhoso quadro naïf que ficaríamos a observar ao longo da quadra.

Assim era o presépio da minha infância. Mas também havia um presépio mais simples, em que apenas se utilizava a figura do Menino Jesus. É um Menino de pé sobre uma peanha, que se coloca num trono armado em pirâmide com caixas de diversos tamanhos, cobertas de panos rendados. Nos vários andares do trono são colocadas searinhas e laranjas. Este é o presépio tradicional algarvio que se fazia no interior da região com os meninos esculpidos em madeira por artistas populares do século XIX, conhecidos como “pinta-santos”.

Decidi que, por estes dias, hei-de visitar os presépios que, pelo Algarve fora, em museus, associações culturais e outras instituições públicas, muitas mãos replicadoras de tradições colocam à disposição do nosso olhar.



Postal de Boas Festas do Turismo do Algarve, a partir de um presépio tradicional algarvio do Museu do Trajo de S.Brás de Alportel - Anos 90.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Amor na Ria Formosa


Por Moema Silva
[Jornalista - Lisboa]

A história que aqui se relata tem direitos de autor reservados e é fielmente inspirada em emoções verdadeiras. Sei que parece mesmo um guião de telenovela, mas isso é porque a vida imita a arte e vice-versa. Fala de um parzinho romântico que se conheceu durante umas férias de Verão no Algarve. Eram ainda uns miúdos, mas já haviam entrado naquela fase da adolescência em que as hormonas gritam. Ela ficava sem ar de cada vez que via aquele rapaz bronzeado, de cabelo loiro comprido e olhos azuis, a mergulhar no mar. Ele estava encantado com a doçura e a ousadia daquela menina que nadava como uma sereia. O resto ficou por conta do belo cenário da Ria Formosa, dos dias preguiçosos passados sob o sol, das carícias trocadas por entre as dunas, na areia. Nas noites de céu estrelado, passeios e cantorias ao luar, afastavam-se do grupo de amigos para saborear os primeiros beijos. Descobriram o gosto da pele um do outro e sonharam ficar juntos para sempre. Foi um romance conturbado por castigos e proibições, tipo Romeu e Julieta. (Quase um clássico drama algarvio!). Ela morava em Lisboa e pertencia a uma “família de doutores”, como se dizia na época. Ele havia nascido e crescido ali mesmo, entre os pescadores da Ilha do Farol. Para ela, estudar, viajar e ter muitas aventuras, era dado garantido. Para ele, isso representaria uma luta de sobrevivência no futuro.
Findas as férias, despediam-se em lágrimas, prometendo trocar cartas e poemas. Até que o mundo os afastou. Guardaram uma recordação intensa dessa estreia no maravilhoso e imprevisível universo do amor. Seguiram rumos diferentes, tiveram experiências diversas. Nunca mais se viram. E, três décadas depois, ela recebeu uma mensagem via internet… Era ele, dizendo que a procurara por todo o lado e nunca a havia esquecido. O reencontro foi inevitável. Que mulher resiste a um homem que abre o coração e confessa ter sido ela a grande paixão da sua vida? Seguiu-se a redescoberta dos sentimentos antigos. Depois, veio o desejo. Corpo e alma unidos numa comunhão até então inédita entre ambos. Tomados pelo arrebatamento da juventude, chegou a ansiedade madura de recuperar o tempo perdido. O que fazer com esta segunda oportunidade que lhes foi reservada pelo destino?
A resposta está nos próximos episódios desta novela da vida real. O final feliz vem já a caminho! Esperam pelo próximo Verão para regressar à sua ilha, envoltos num eterno abraço com cheiro a maresia.


Ilha do Farol

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Na linha do tesouro


Por Sofia Figueiredo
[Investigadora em Biologia de Sistemas – Berlim]

Linha de Tunes. Saio do comboio no cruzamento das linhas e poderia sair de olhos cegos e ouvidos surdos, saberia que estou no Reino do Algarve. Há um odor no ar que é só deste céu, deste sol e desta gente, habitantes no Algarve e na minha alma. É um odor a alfarrobeiras, a figos a secar nas açoteias e a amêndoas no chão acabadas de varejar, escondidas nas cardas que já não picam as mãos sapientes e calejadas de quem trata a terra. É tudo isto misturado com a maresia que faz este ar tão fácil de respirar…E tudo isto trouxe eu, ontem, ao Reino da Prússia, ao cozinhar um pão doce que me levou à confluência das linhas do Algarve com a tríade Alfarroba – Figo -Amêndoa.

Numa manhã solarenga de Sábado, a minha filha arrastou-me da cama e eu, ao avistar um céu tão azul lá fora, arrastei-a para a cozinha. De uma receita básica de pão, fizemos um pão doce de alfarroba, amêndoa e figos secos. Em 125 ml de água morna, desfiz 12 g de fermento fresco de padeiro e 2 colheres de sopa de mel. A mistura das farinhas ficou a cargo da minha filha: 50 g de farinha de alfarroba, 200 g de farinha de espelta, 125 g de farinha de trigo com uma colher de chá de sal.
Juntei a água com o fermento às farinhas, com 100 g de amêndoa moída e cerca de 6 figos secos picados em bocadinhos pequenos. Raspei um limão e trouxe um aroma a canela a este pão. Mexemos até a massa se separar das bordas da taça. Cerca de uma hora depois, fizemos bolinhas da massa e pusemos no forno. O perfume deste Algarve espalhou-se pela casa e misturou-se com o Sol que inundou toda a sala e nos inundou a nós enquanto esperávamos que o pão saísse do forno. Comi os pãezinhos simples, comi-os com o doce de tomate da minha avó, comi com queijo de cabra fresco e polvilhado com ervas provençais e voltei a comê-lo só, só por gulodice, só para o meu comboio parar mais uma vez naquela confluência de linhas a Sul.

E o meu comboio continua a sua viagem, por estradas de terra e alcatrão, por estradas de gelo e pó, de sol e lua, na senda de um tesouro que eu sei onde está, mas não sei quando está. Avista-se no infinito das linhas de comboio que rasgam em latitude o meu Reino a Sul.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Um Algarve para crianças


Por Fátima Catarina
[Adjunta do Gabinete da Direcção do Turismo do Algarve]

No Reino dos Mares, algures na costa do Algarve, vive a senhora Água com três filhas muito irrequietas: a Maré, a Corrente e a Onda.

A Maré com a ajuda da Lua gosta de brincar ao sobe e desce num movimento lento e num vaivém constante. Ela diverte-se a levar a areia das praias e a voltar a depositá-la...

A Corrente é uma viajante que adora passear pela costa do Algarve, desde Sagres até Espanha... Gosta muito da costa alta e rochosa do Barlavento! Leva consigo areia que arranca das falésias e deposita na costa baixa do Sotavento, num local lindíssimo que está a criar e que chamou de Ria Formosa... Ali tem construído ilhéus, canais, sapais… Ali vivem cavalos marinhos, búzios, amêijoas e outras criaturas lindas!

A Onda é muito irrequieta…adora acariciar os meninos que brincam à beira-mar. Leva areia, traz areia…

São umas irmãs muito unidas. Juntas têm feito da Ria Formosa um território muito especial…


Ilustração de Patrícia Oliveira (Inspirada em Madalena Matoso)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Os albricoques


Por Armando Correia
[Inspector da Polícia Judiciária - Faro]

Sou polícia e desembarquei no Algarve em 1992, na sequência de uma imposição do Estado aos seus jovens trabalhadores.
Fazia o meu primeiro serviço de Piquete de 24 horas. Atendia telefonemas, recebia pessoas com os mais variados problemas, muitas delas a precisar unicamente de uma palavra amiga, de compreensão ou carinho. Respondia como podia e como me ensinaram. Sentia-me entre a figura do “pastor” e a do “psicólogo”; uma espécie de “pastólogo”.
Queria acabar aquele serviço com a consciência de tudo ter feito para responder ao que me era pedido. Iniciara às 8H00 e até às 21H00, tudo fora assim.
À entrada da Polícia, surge um pequeno vulto projectado no piso mármore de cor clara. Atrás do vulto, um passo arrastado nuns sapatos pretos, um pouco sujos de lama, collants negros, camisa e casaco de malha igualmente escuro, cabelo ralo e comprido e uma face intensamente rugosa com um esgar pesado. Devia ter uns 65 anos, pensei – este é um “jogo” pessoal, o de adivinhar a idade dos queixosos, que depois exibem o bilhete de identidade e confirmo ou desminto a minha ideia, servindo de escape aos pequenos dramas com que lido.
Disse para se sentar, delicadamente. Mais delicadamente que o normal porque senti que algo dramático a atormentava e o respeito pela idade é um imperativo pessoal.
Sentou-se; suspirou; olhou para mim e vi-lhe no olhar a desconfiança. Primeiro pensei ter a ver com o seu drama. Depois percebi ter a ver com a minha idade. Aos seus olhos, um jovem polícia seria a pessoa menos indicada para resolver os problemas de uma velha mulher.
Lancei-lhe um olhar o mais “maduro” possível, fiz um ar altamente profissional e ao estilo de operador da “OK Teleseguro”, disse-lhe:
"Boa-noite minha senhora, diga; em que lhe posso ser útil? "
"Roubaram-me os albricoques!" – Disse com sotaque cantado, ar zangado, seco e convicto.
Bom, o meu primeiro problema sério. Roubos eram comigo, agora albricoques é que eu não fazia ideia do que se tratava.
Fiz-lhe várias perguntas, na tentativa de entender o que era. Mas ela não me facilitava a vida:

"A que horas foi isso?"
" Se eu soubesse estava lá para os apanhar."
"Em que sítio estavam? "
"Onde é que haviam de estar… "
"Como é que os levaram?"
" Só lá chegam com a mão…"

Desisti de perguntas. Levantei-me. Fingi que ia consultar um código penal e discretamente perguntei a um colega que raio eram "albricoques”.
A resposta foi pronta e lá me explicou com ar de gozo:
“São alperces”.
Percebi o quanto ignorava a cultura algarvia e a relação indirecta que existe entre o conhecimento académico e o popular.
Humildemente, compreendi o seu drama, soube quanto tempo levava o fruto a amadurecer, o quão doces eram os seus albricoques, o quanto ela contava com eles para comer, dar e vender e o quanto eu não lhe podia ser útil.
Saiu da mesma forma decidida. Desconfiada da polícia. De mim. E da minha ignorância.
Eu, acabei o serviço, fui comprar albricoques, comi-os e fiquei a saber a que sabe a ignorância.

Alperces secos

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Las Palomitas


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Decorriam os loucos anos sessenta… Faro, a capital do Algarve, não passava de uma pacata cidade de província ainda sem Universidade, mas já com uma notável vida estudantil, dado que só aqui havia Liceu e os jovens de quase todo o Algarve e Baixo Alentejo vinham completar os estudos, antes de alguns seguirem para Lisboa ou Coimbra onde iriam frequentar as universidades.

Entre outras figuras típicas, vivia em Faro um artista pintor chamado Sidónio Almeida, qual personagem saída de um romance qualquer.
Sidónio era um artista. Sem dúvida alguma, quem conhece a sua obra pode atestá-lo. Muita gente ainda se deve lembrar das suas estórias, algumas incontáveis. Eu conheço esta que me foi contada por um amigo:

Quatro ou cinco amigos, também amigos da boa disposição, juntaram-se em casa do Sidónio para mais uma paródia. Conversa, puxa conversa, a tertúlia decidiu que o Sidónio deveria pintar um quadro, no qual estaria um deles, sentado num cadeirão, todo nu, com dois pombos que viviam em casa do Sidónio, pousados nos ombros. Resta acrescentar que o “modelo” escolhido para posar tinha um corpo pouco vulgar, completamente coberto de pelos. A obra iria chamar-se “Las Palomitas”.

Não consta que o quadro tenha sido alguma vez pintado. Sabe-se é que os pobres pombos acabaram, nessa noite, dentro da única e velha panela que existia no meio de toda aquela grande confusão que era a casa do pintor Sidónio Almeida.


Óleo sobre tela - Sidónio

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Luis Kadó

Por Corina Justo
[Técnica de turismo - São Brás de Alportel]

Figura bem conhecida dos São-brasenses, o Luís Kadó, já falecido, costumava deambular pelas ruas de S. Brás não passando despercebido por causa da tosse característica que o afligia, devido ao tabaco. Era uma presença assídua em qualquer evento mais ou menos importante, fosse no cinema, nas noites de verão no jardim da Verbena, nos jogos de futebol disputados entre os clubes locais, nas palestras na biblioteca, nos bailaricos, na missa e o posto de turismo não era excepção. Às vezes entrava só para me cumprimentar:

“Bom dia Corina! Amanhã faço anos. 47. Não pareço, pois não? Diz lá Corina se não sou bonito? Não sou parecido com o Alain Delon?”
Eu respondia:
“Sim, Luís és lindo”.
Ele insistia que fazia anos no dia seguinte perguntando-me o que eu lhe iria oferecer.
E eu tentava saber se ele gostaria de alguma coisa em particular. Então ele enumerava o que os amigos já lhe tinham dado:
“A D. Cidália (Directora da Santa Casa da Misericórdia, em S. Brás) ofereceu-me um pulôver; o meu amigo Leonel (ex-piloto da TAP e actual piloto da Royal Air Maroc) trouxe-me de Marrocos um belo casaco de cabedal…Tinha uma televisão mas está avariada!”

A dica tinha ficado no ar. O Luís ganhou um televisor que já não era usado lá em casa mas que funcionava perfeitamente. E eu fiquei com direito a uma fatia de bolo que ele fez questão de trazer embrulhado numa folha de papel de alumínio.

Noutra ocasião, desta vez pelo Natal, também queria receber uma prenda. Olhava para a vitrina do posto dando a entender que poderia ser o que eu quisesse dar-lhe.
Voltou no dia seguinte e lembro-me de lhe ter oferecido um chapéu de palha.

Um dia entrou de rompante no posto de turismo, muito aflito, para averiguar se eu não teria uma fotografia dele tirada num Domingo de Páscoa, porque queria aparecer na revista Algarve Mais.
E eu tinha, de facto, essa fotografia das Tochas Floridas que a Câmara Municipal me tinha reencaminhado. Mostrei-lha e ele ficou encantado revendo-se no Alain Delon em pessoa.

E assim ficou o Luís Kadó imortalizado.