terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Memórias do Cinema em Faro

Por Jorge Carrega
[Docente e Investigador Universitário]

A primeira vez em que assisti a uma sessão de cinema tinha sete anos de idade. Recordo-me dessa tarde solarenga em que eu e os meus colegas da segunda classe saímos da escola do Carmo em Faro, acompanhados pela nossa professora primária, e nos dirigimos ao Teatro Lethes. Foi ali, com o olhar fixo no grande ecrã, que descobri a magia do cinema.
O filme escolhido pelo Cineclube de Faro foi “ A Quimera do Ouro” e mal poderia eu imaginar que naquela mesma sala onde no início dos anos 80 conheci Charlie Chaplin, se havia realizado em 1898 a primeira sessão de cinema no Algarve.

Teatro Lethes - pormenor do interior

Se no início do século XX, o cinematógrafo não era mais do que uma curiosidade, alguns anos depois, em plena Iª Guerra Mundial, a popularidade do cinema na capital algarvia era tão grande que alguns notáveis decidiram constituir uma sociedade com o objectivo de construir e explorar comercialmente o Cine-Teatro Farense, uma moderna sala de espectáculo que permitia aos farenses desfrutarem das “fitas” com todo o conforto.
Por ali passaram os filmes épicos de D.W.Griffith e Cecil B. De Mille, as comédias de Charlie Chaplin e Buster Keaton, as histórias de gangsters de James Cagney e Humphrey Bogart, as aventuras de capa e espada de Errol Flynn, os westerns de John Wayne e os musicais de Fred Astaire e Ginger Rogers.
Após a II Guerra Mundial, esta sala que durante 35 anos constituiu o ponto de encontro de todos os cinéfilos farenses, tornou-se obsoleta, sendo demolida em 1952 para dar lugar a uma sala moderna, que entre outras inovações, apresentava um projector automático. Nascia assim, o Cinema de Santo António, inaugurado com pompa e circunstância no dia 31 de Dezembro de 1953.

Cinema de Santo António - interior


O início da década de 1950 marcou de resto uma era de ouro na história da 7ª arte. Em tempo de paz e recuperação económica e com a massificação da televisão a mais de uma década de distância, o cinema assumia-se como a grande forma de entretenimento de massas, juntamente com o futebol e a rádio.
Prova da importância do cinema na sociedade algarvia dos anos 50 foi a inauguração, com poucas semanas de diferença, de duas salas de cinema no concelho de Faro.
Estávamos no verão de 1950, quando a sociedade que explorava o Cine-Teatro Farense inaugurou o S. Luís Parque, um cine-esplanada que se situava nas imediações do mercado Municipal e proporcionava à população local a possibilidade de assistir a sessões de cinema e a espectáculos de variedades ao ar livre durante os meses de verão.
Igualmente no concelho de Faro, a pitoresca aldeia de Estói inaugurava no dia 13 de Agosto o cinema Ossónoba, iniciativa de um empresário da terra, José de Jesus Zeferino, que deste modo contribuiu decisivamente para a divulgação da 7ª Arte no interior do concelho.
É também neste período que o cinema começa a ser encarado como algo mais do que um mero entretenimento. Nesse mesmo verão de 1950, o artista e intelectual sambrasense, Roberto Nobre, assinava um artigo de opinião no jornal “O Algarve” sobre o importante papel dos cineclubes na promoção da cultura fílmica. Segundo Roberto Nobre, ele próprio autor da primeira obra cinematográfica algarvia, a curta-metragem “Charlotim e Clarinha”, realizada em Olhão em meados dos anos 20:

“No cinema, não há apenas uma distracção fútil, para depois do jantar. Há também, é preciso não o esquecer, uma grande arte como todas as outras. É necessário aprender a vê-lo, a saber escolhe-lo. O Cinema ainda é um grande desconhecido. A missão do cineclube é revelar-lhe essa sua face mais elevada”.
In “O Algarve”, 11 de Julho de 1950


Poucos anos depois, em 1956, num claro sinal da importância da cultura cinematográfica para as elites culturais farenses, nascia o cineclube de Faro, instituição que se mantém em actividade, sendo hoje um dos mais antigos cineclubes portugueses.
Pelo Cinema de Santo António, pela Esplanada S. Luís Parque, pelo Cinema Ossónoba e pelas restantes salas de cinema do Algarve, passavam por esta altura estrelas como Kirk Douglas, Marilyn Monroe, Charlton Heston, Cantiflas e tantos outros que fizeram a história do cinema, em êxitos como “Quanto Mais Quente Melhor”, “Ben-Hur”, “A Volta ao Mundo em 80 Dias“ e “Spartacus”, que fascinaram gerações de algarvios.
Com o final da década de 60, chega a massificação da televisão e com ela uma profunda transformação dos hábitos de lazer dos portugueses que preferem ficar em casa a ver séries como “Bonanza” e “O Santo”, e a partir de 1977, telenovelas brasileiras como “Gabriela” e “A Escrava Isaura”.

A alteração dos hábitos de consumo audiovisual que se verificou ao longo das décadas de 70, 80 e 90 teve como consequência directa o declínio do número de espectadores de cinema, registando-se o encerramento de um grande número salas de cinema por todo o país.
Em Faro, a primeira vítima foi o cine-esplanada S. Luís Parque, no início da década de 90, logo seguido pela sala de cinema do centro comercial Algarb.
Alguns anos depois, seria a vez do Cinema de Santo António, cuja derradeira sessão, promovida pelo Cineclube de Faro em jeito de homenagem, se realizou no dia 31 de Julho de 2001 com a exibição do filme “Cinema Paraíso” de Giuseppe Tornatore, obra que constitui uma das mais belas homenagens alguma vez feitas ao cinema.
São poucas as antigas salas de cinema que sobreviveram no Algarve. Felizmente o Cine Teatro António Pinheiro em Tavira (inaugurado em 1968), o cinema Ossónoba em Estoi (inaugurado em 1950) e o Cine-Teatro Louletano (inaugurado em 1930) foram adquiridos pelas respectivas autarquias, ficando assim salvaguardada uma parte importante da história do cinema no Algarve.

Teatro Lethes - Faro

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A praia cor-de-rosa


Por Maria João Arcanjo
[Técnica de Turismo - Praia da Rocha]

Esta história aconteceu-me quando comecei a trabalhar no Posto de Turismo da Praia da Rocha, em meados da década de 80. Era então muito jovem e inexperiente. Depois de alguns dias em que trabalhei acompanhada por uma colega que me orientava e me apoiava no atendimento aos turistas, calhou-me finalmente ficar de serviço sozinha.

Estava pois, pela primeira vez, por minha conta e risco quando entrou no Posto de Turismo um casal francês que queria visitar a Praia Cor-de-Rosa. Ora por muito que eu fizesse a revisão mental dos locais de interesse do Algarve e me esforçasse por me lembrar do nome das praias da região, não conseguia imaginar onde pudesse existir essa tal praia.
Já a ficar nervosa por não conseguir responder à solicitação dos clientes, telefonei, aflita, para a minha colega que nesse dia se encontrava de folga.
Ela tranquilizou-me logo afirmando que de facto não existia no Algarve qualquer praia com esse nome.
Voltei a encarar o meu casal de turistas e expliquei-lhes que não existia tal praia. Mas eles insistiram:
“Não é o nome da praia. É mesmo a praia que é toda cor-de-rosa. Tem a areia cor-de-rosa, rochas cor-de-rosa…”
E eu, novamente a perder a confiança em mim própria, lá lhes fui perguntando:
“Mas onde é que os senhores obtiveram essa indicação? Têm a certeza de que é no Algarve?”
E eles que sim, que tinham até visto uma fotografia dessa praia num guia turístico.
“E os senhores ainda têm esse guia?” voltei a perguntar.
“Sim, sim. Temos lá no hotel”.
Lá combinámos então que eles voltariam ao Posto de Turismo com o dito guia turístico, para eu poder identificar a praia e os encaminhar devidamente.

Um pouco mais tarde, regressaram com o”bendito” guia. Pude então verificar que se tratava de um recanto da Praia da Rocha. Só que aquela página do guia tinha, por qualquer motivo insondável, sofrido um problema de impressão e a imagem da praia estava toda rosada.
Consegui explicar ao casal de franceses que se tratava apenas de um problema gráfico e que, por muito curiosa que fosse a existência de uma praia toda cor-de-rosa, em nada ficariam desapontados depois de desfrutarem da beleza multicolor da Praia da Rocha.

E, ao que sei, não ficaram.



Praia da Rocha

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sabores do Algarve


Preparem-se para o nosso próximo desafio, que está quase a chegar.

É já a partir de 1 de Março que publicaremos receitas, sugestões, dicas gastronómicas, histórias de comida, aventuras na cozinha, humor culinário e tudo o que se relacione com sabores algarvios que, vocês, amigos leitores e seguidores deste blogue nos queiram enviar.

Quinzenalmente convidaremos um chef de reconhecido mérito para que também ele partilhe a sua arte, com o objectivo de promover o que a mesa algarvia tem de melhor. Esta confecção será registada em vídeo para ajudar a criar água na boca a todos os bons garfos do país.

Mas porque a arte de bem comer deve ser bem regada, semanalmente – até 31 de Maio – um produtor de vinhos ou enólogo aconselhará um néctar algarvio aos leitores.

Por isso, comecem já a procurar nos vossos livros de receitas o prato algarvio a que ninguém resiste. Preparem-se para nos contar que alimentos vos tiram do sério. Pensem comida. Pensem bebida.

Já estamos a preparar a mesa para receber as vossas dicas.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A minha lenda da amendoeira em flor

Por Sofia Figueiredo
[Investigadora em Biologia de Sistemas – Berlim]

Guerreiro que não conhecia o sabor da derrota, Ibn-Almundim reinava em Chelb, então capital do país a Ocidente, Al Gharb. Um certo dia aprisionou um barco, crê-se de origem Vândala, que tentava acercar-se das costas de seu território com a clara intenção de saquear seu Reino, hoje, dos Algarves. Fez destes navegantes do Norte seus prisioneiros.

De espada em riste e armadura gasta e batida, o rei Yordok von Prūsa defendia o seu território na costa Báltica com fervor. Numa batalha com povos do Sul, fez seus prisioneiros uma horde de cavaleiros do Deserto, que tentavam conquistar as suas terras. Avistou um cavalo de sangue árabe, galopante, a tentar escapar e logo saíu em seu encalce.

Entre eles, estava Gilda, filha das terras do Norte, de longos cabelos de oiro, a lembrar a Ibn-Almundim searas de trigo sem fim, banhadas pelo sol, de olhos de um azul puro, límpido, onde o rei Árabe mergulhou, como se nos mares da costa de Al Gharb mergulhasse. E fez-se ele prisioneiro de um amor arrebatador, que o avassalou a ele e Gilda. Casaram-se e o Rei árabe, feliz, em todos os seus actos demonstrava o seu amor por Gilda, igualmente correspondido.

Ao confrontar quem tentava escapar, Yordok von Prūsa, não conseguiu escapar aos encantos da beleza de Isra, filha do Mar do Sul. Deixou-se emaranhar nos seus cabelos longos, cor dos castanheiros de suas terras, ondulados como o seu mar, perdeu-se no seu olhar, cor de esmeralda, profundo e misterioso. E perdeu-se Isra também, nos contornos desta armadura, que tanto sangue já vira, mas que escondia um coração de menino, palpitante de amor. Amaram-se, casaram-se e foram felizes.

Um certo dia, Ibn-Almundim olhou a princesa nórdica e viu que o brilho do seu olhar desaparecera, que o seu sorriso já não tinha a luz de outrora... ao questioná-la sobre o que se passava, ela explicou-lhe que um certo vazio, uma nostalgia profunda que não conseguia explicar, dela se apoderara.

Um dia, o Rei Yordok olhou a sua princesa e não a reconheceu. O seu olhar era baço, os seus cabelos perderam o vigor das ondas do mar, a sua pele perdera a cor. As tentativas para perceber o que se passava com o seu amor, foram vãs. Isra não sabia explicar que mal a assolara. "Um manto negro caíu sobre mim", dizia-lhe.

O Rei Ibn-Almundim de tudo tentou para recuperar o sorriso de sua princesa, mas todas as tentativas foram em vão. Decidiu chamar os sábios da corte e expor-lhes o seu problema, à procura de uma solução. Aldir, o mais velho de seus sábios, pensou no que poderia afectar a princesa Gilda e, dias mais tarde, apresentou-se ao Rei. "O que aqui o traz, sábio Aldir?", questionou o Rei, "Trago amêndoas ", respondeu Aldir. O rei pensou que, além de sua amada ter perdido a luz do olhar, o seu sábio tinha agora perdido a luz da razão. Desesperado, perguntou: "Mas para que quero eu amêndoas?????", "Semeie estas amêndoas em todos os campos de sua corte e, no início de uma Primavera, o sorriso de Gilda voltará a iluminar o seu coração, meu Rei".

Desesperado e tendo já de tudo tentado para recuperar a sua princesa, o Rei Yordok von Prūsa chamou os seus sábios à corte. Sem demoras, o sábio Stasdir disse-lhe: "Meu Rei, leva a Princesa a passear nos teus campos no dia mais frio e mais luminoso de Inverno. Mas atenção! Tem que ser um dia de Sol, depois de uma grande tempestade". O Rei, enraivecido, disse ao sábio que estava louco, que as mais caras jóias de todo o território do Leste, as mais preciosas especiarias, nada fizeram, como é que um simples passeio pelos bosques iria devolver a luz à sua princesa?

O Rei, apesar de sem crença, seguiu o conselho de Aldir. Depois de Verões de calor assolante, de Outonos de ventos enraivecidos, de Invernos inundados de temporais, chegou mais uma Primavera. Uma certa manhã, em seus aposentos, tão escuros como a sua alma, Gilda dirigiu-se à janela e abriu-a de par em par, como fazia todas as manhãs.

Passou uma florida primavera, um verão assolante, um outono de folhas esvoaçantes e Isra continuava taciturna, cabisbaixa. Chegou o Inverno, límpido, estéril, branco. Numa manhã de céu azul, sol frio e chão branco, Yordok von Prūsa, sem esperança, seguiu o conselho de Stasdir.

Ilustração de José Maria Oliveira

Mas nesta manhã de Fevereiro, tudo foi diferente. Ao avistar os campos brancos, as árvores nuas, beijadas pela delicada flôr branca de amendoeira, a princesa rejuvenesceu e correu para o Rei, seu amor. Entre beijos e abraços efusivos, não conseguiu encontrar palavras para descrever o que seus olhos de azul límpido viram, ao abrir aquela janela. "Um manto branco cobre todo o teu Reino, meu Rei, tal como todos os campos do meu país estão cobertos por neve! Floquinhos brancos, leves caíram nos ramos das árvores, aqui e ali!! Ah, meu amor, não caibo em mim de felicidade!" E também o Rei não coube em si de felicidade por ter devolvido o sorriso e um pouco das terras do norte à sua Princesa.

Ao sair de seu castelo e avistar os campos brancos, Isra não conteve um grito de excitação! "Meu amor, que avista o meu olhar? Estes campos cobertos de branco, as árvores nuas beijadas de pequenas e brancas flores, são como as amendoeiras em flor do meu Reino a Sul!" O Rei não coube em si de felicidade por ter devolvido o sorriso e um pouco do Sul à sua Princesa, e ainda acrescentou: "E sabes uma coisa, aqui neste manto branco, até podes esquiar!"

Nota: A lenda das amendoeiras em flor de Ibn-Almundim e Gilda foi adaptada, ao sabor da minha imaginação, a partir de uma versão desta lenda contada pela minha mãe. Tudo o resto é pura ficção.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A Costa Vicentina vista de um ângulo diferente

Por Luis Nadkarni
[Monitor de desporto - Faro]

No ano de 1979, após ter realizado vários treinos de escalada nos blocos rochosos do Cerro da Cabeça, em Moncarapacho, decidi explorar o potencial da Costa Vicentina para o desenvolvimento desta actividade desportiva. Falei com o meu colega de aventuras, Jean Michel, e escolhemos a zona entre Monte Clérigo e Amoreira (Aljezur) para realizar uma série de escaladas.

Fomos de comboio até Lagos onde apanhamos um autocarro que nos levou até Aljezur. Iniciámos então a caminhada entre Aljezur e Monte Clérigo (cerca de 7 Km). Chegados à Praia de Monte Clérigo, montámos as tendas e nessa mesma noite houve fogueira na praia, umas cervejinhas e guitarradas. Já conhecia razoavelmente aquelas paragens, dado que tinha amigos de Faro que passavam as férias do verão naquela zona e já os tinha ido visitar anteriormente.



Na manhã seguinte fomos para o local escolhido para as primeiras escaladas, uma falésia com cerca de 35 metros de altura situada na extremidade sul da Praia da Amoreira, junto à foz do rio. Nesta escalada utilizámos corda dupla (40 m), pitons de fabrico artesanal, mosquetões, arneses de corda (cadeira suíça). Levei umas botas "Vibram" que um amigo do meu pai me tinha trazido dos Estados Unidos. A escalada desta falésia decorreu sem problemas, indo eu à frente "a abrir" e o Jean a fazer segurança. Chegados ao topo desfrutámos de uma paisagem fantástica que só a Costa Vicentina proporciona.

Recordo-me de ter escalado, desta vez em livre, a cara do "Gigante Deitado", uma formação geológica xistosa situada na extremidade norte da Praia da Amoreira onde não aconselho de modo algum a escalada. Tendo conseguido atingir o topo, neste caso o "Nariz do Gigante", viria, no entanto, a apanhar uns belos sustos, principalmente na descida. A sensação de estar literalmente pendurado numa falésia sobre o mar, observando aquela imensidão onde a terra acaba e o mar começa, foi uma experiência verdadeiramente fantástica. Nesses tempos, estas nossas aventuras iriam contribuir decisivamente para o desenvolvimento da escalada no Algarve, dado que posteriormente um grupo de jovens algarvios ficou apaixonado por esta modalidade desportiva que promove a auto-confiança, destreza e desenvolve capacidades de decisão para ultrapassar dificuldades.

Valeu a pena.

Praia da Amoreira - Aljezur

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O mestre Diogo Tavares


Por Daniel Santana
[Historiador de Arte - Faro]

Foi há 11 anos. A recém-concluída licenciatura em História da Arte suscitava um interesse e um olhar renovado sobre o património da região. Lembro-me de contemplar a magnífica e monumental fachada da Igreja do Carmo de Faro, com os seus ricos vãos decorados com molduras de sabor romano, e de se desvanecer a ideia de escala gigantesca ao entrar no templo. O interior tinha afinal dimensões bem medianas que não correspondiam à monumentalidade sugerida pela fachada. “Típico ilusionismo barroco”, pensei eu.
O átrio da igreja era e continua a ser um espaço acolhedor, distinto e dinâmico, em grande medida devido ao subtil encurvamento das paredes que suavizam o trânsito até à nave. No coro alto apreciei, por fim, a exuberante decoração das portas, composta de flores, fénix, putti, golfinhos e leões em pedra, seguindo um vocabulário que se assemelha ao gosto reflectido na talha do interior das igrejas. Espaços dinâmicos, tendência para a monumentalidade e um decorativismo arrebatador. “Estamos, claramente, na presença de um arquitecto do barroco”, voltei a pensar.



Interior da Igreja do Carmo - Faro


Os estudos do Professor Francisco Lameira forneceram-me, entretanto, o nome do autor de tão imponente obra: Diogo Tavares e Ataíde, mestre-canteiro, nome identificado no arquivo da Ordem Terceira do Carmo de Faro e que foi responsável pela campanha de reconstrução da fachada da igreja durante os anos 40 do século XVIII. A sua actividade era também associada a outras obras nas cidades de Faro e de Tavira.
Pouco tempo depois, numa incursão ao Arquivo Distrital, vários manuscritos empoeirados do século XVIII brindaram-nos com surpreendentes revelações. Uma série de documentação inédita informava sobre as responsabilidades daquele artista na origem de obras emblemáticas do património arquitectónico do Algarve. A continuação da investigação permitiu conhecer a fundo a vida e obra de Diogo Tavares, o mais notável arquitecto algarvio do século XVIII, motivando inclusive uma dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Letras de Lisboa em 2006.
O mestre nasceu em Faro em 1711, aprendeu o ofício com seu pai, entalhador. Terá evoluído num grande estaleiro de obras – Mafra? – e regressado ao Algarve. Casou em Tavira, faleceu em Lagoa. Enriqueceu, ganhou fama no Sotavento e morreu na miséria no Barlavento. Construiu e reconstruiu obras de relevo na região, como por exemplo, em Faro, o referido corpo da fachada do Carmo, a capela da Horta do Ourives, a inusitada torre octogonal da Horta dos Cães próximo da esquadra da PSP, a Igreja de São Francisco e a Ermida de Santo António do Alto. Em Tavira interveio na Ermida de São Sebastião, no Convento da Graça, no Palácio da Galeria, nas igrejas de São José e de São Pedro Gonçalves Telmo. Trabalhou ainda em Castro Marim e Monte Gordo.
Não só ajudou a introduzir no Algarve uma arquitectura sensível ao Barroco internacional, como também restaurou e recuperou, com os critérios do seu tempo, muitos edifícios notáveis que já existiam na região. Ou seja, produziu cultura do seu tempo e simultaneamente preservou a herança do passado. Óptima lição para os nossos dias.

Não posso deixar de pensar no muito que o Algarve, e o turismo em particular, pode beneficiar através da preservação e valorização do seu património histórico-cultural. O passado foi negligente neste aspecto, inclusive para as obras do mestre Diogo, e o que é feito no presente ainda não satisfaz. É o património que distingue, identifica e fixa a memória de uma região, potenciando a sua atractividade.
Preservar a herança do passado seria hoje o melhor presente para Diogo Tavares que, se por milagre fosse vivo, celebraria este ano o seu trecentésimo aniversário.


Igreja do Carmo-Faro

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Com os canteiros da Bordeira

Por Nuno Ferreira
[Jornalista, autor do blog Portugal A Pé - Costa da Caparica]


Em Março de 2008 entrei de mochila às costas na Junta de Freguesia de Santa Bárbara de Nexe a pedir informações sobre um conhecido acordeonista da região. O secretário da autarquia, depois de ter confessado que nunca tinha sido abordado por um jornalista de mochila às costas, levou-me a casa do músico veterano e lenda da região, mas ele não estava. Foi quando se virou para mim e disse: “Ouça, você não entrevista o acordeonista mas vai entrevistar os nossos canteiros”. Foi assim que tomei contacto com a história memorável dos canteiros da Bordeira. Encontrei José das Neves Moleiro, então com 68 anos, na Casa de Pasto Rústica, à beira da estrada, em companhia de outro grande canteiro, João Desidério.
José e João foram dois dos muitos canteiros da localidade da Bordeira que rumaram para França no tempo da ditadura e das vacas magras e acabaram a protagonizar o restauro de monumentos famosos no mundo inteiro.
Começaram ali, em crianças, mais precisamente nas pedreiras do lugar de Funchais, Bordeira, andaram por Cascais, alguns, e depois fizeram-se à vida e trabalharam no que sempre moldaram e os moldou a eles.
“A malta nova não tinha outra saída nesse tempo. Aqui, só havia uma oficina de carpintaria. Íamos para as pedreiras, ao todo éramos mais de 100 canteiros. Era vida de escravo, naqueles buracos marafados, o “bicho” queria se endireitar e não podia...”, contou-me José. Nos anos 60, quase tudo emigrou. “Quase tudo abalou, primeiro para Cascais e depois para França. A gente não queria nada com a guerra colonial. Eu atravessei o Guadiana a salto no dia 29 de Janeiro de 1962”.


José das Neves Moleiros e João Desidério


José acabou por viver 38 anos em Paris. “A princípio, o mais difícil foi adaptar-me à língua. Depois, fui arranjando trabalho no “boca à boca”. Comecei a trabalhar no mais fácil mas nunca imaginei vir a restaurar os monumentos que restaurei”.
A destruição da Iª Guerra Mundial, a poluição, a erosão provocada pelo clima, tudo foi deixando marcas na pedra das obras de arte francesas. “A pedra deles é mais macia, absorve mais a água...”
Os dedos da mão de José das Neves Moleiros não chegavam para contar o número de monumentos que a sua arte de canteiro algarvio e “made in” Bordeira ajudou a restaurar: “Em Versailles, logo à entrada, junto às grades, está trabalho cá do velho. Nas cocheiras do palácio também. E se for à Catedral de Nôtre Dame, procure bem uma «estatuazinha» pequena na parte de trás do jardim. Fui eu que a restaurei”.
O olhar de José brilhava de orgulho. Por perto, mais reservado, o mestre João Desidério escutava a conversa como se não fosse nada com ele. Foi José a ajudá-lo a soltar a modéstia. “Tu João, tu também restauraste muita coisa”. Só em Paris, João trabalhou no restauro da Assembleia Nacional, do Louvre, dos Invalides e do Sacré Coeur. Da grande basílica de Montmartre lembram-se os dois bem, não haveriam de se lembrar. “A pedra do Sacré Coeur era pedra marafada, rija de um raio, mais duro que um ferro...”

Deixei a Bordeira e os canteiros entregues à conversa sobre os futuros museus da cantaria e monumento aos canteiros e fiz-me à imprevisibilidade da estrada. Parti bem mais rico do que quando ali parei, à porta da Junta de Freguesia e na mente ecoavam ainda as palavras de José das Neves Moleiro: “Eles em papel eram mais fortes mas depois na prática a gente éramos os reis”.


Santa Bárbara de Nexe

[O autor também publica crónicas semanais no Café Portugal]

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Voltar às origens

Por Ana Serafim
[Jornalista - Lisboa]

Entre um e outro solavanco, o jipe debate-se com a estrada de terra batida. Baixo Guadiana. Para trás, ficaram Vila Real de Santo António e Castro Marim. Pela frente, em curva e contra-curva, a serra do sotavento algarvio.
Oliveiras de azeitona verde e pinheiros começam por compor o cenário. À sua passagem o veículo põe um pó fininho e avermelhado a dançar no ar. Não se anda muito até surgir a primeira paragem no safari.

Estendendo o braço pela janela, o condutor e guia, o Sr. Merca, apanha um ramo de esteva. É típica do Algarve e muito usada pelas famílias serranas para atear o lume dos fornos de pão. Na palma da mão, exibe as minúsculas sementes, castanhas escuras que podem ser levadas pelo vento e arruinar plantações mais sensíveis.

Mais à frente, apresenta o cacto Agave, outra das plantas características da serra. «Serve para fazer tequila no México. Aqui, usa-se em corda e sisal das redes de pesca», conta.
E ainda uma amendoeira de amêndoa dura, um dos três tipos existentes na região algarvia. «A amendoeira é a neve do Algarve», brinca, explicando que as suas flores só ficam na árvore cerca de 12 dias. Quando caem, pintam o chão de branco.
Agora, o tom é outro. Na paisagem, predomina o castanho, o verde-escuro, a vegetação rasteira. Sente-se a secura da terra ainda que, ao longe, se veja o Guadiana. «Quando está clarinho, pode avistar-se até Huelva, em Espanha», garante o guia, enquanto serpenteia por caminhos já trilhados pelos árabes.
Nova paragem. Há que conhecer o figo de pita, um cacto verde-claro que pode ter várias utilizações. Serve, por exemplo, para reciclar água porque absorve a sujidade. «Diz-se, na brincadeira, que era usado pelas senhoras como batôn. Às vezes, quando estou em passeios com turistas, tiro a tinta e pinto os lábios. Ficam muito vermelhos», confidencia o Sr. Merca.


Seguimos, até chegar a Cerro do Enho. Mais uma pausa. Esta, imposta. Um rebanho de cabras algarvias, salpicadas de branco e castanho, ocupou a estrada. Têm chifres impressionantes, pelo que o melhor é mesmo ceder-lhes passagem. O olhar espraia-se pelo lugarejo, com as suas casas típicas, brancas, com uma barra azul a dar-lhes cor, a cozinha separada das divisões principais, o forno de pão, os currais, as cisternas que substituem a água canalizada. Por cima de uma ainda há vestígios dos figos que, no pino do Verão, ali caramelizaram ao sol.
Além do pastor, ainda não se viu vivalma. «Aqui, só há um autocarro por semana, se houver. No Verão, nem deve haver nenhum. No Inverno vem buscar as crianças para a escola», descreve o condutor, algarvio de gema. E explica que são as carrinhas que andam pela serra vendendo roupa ou alimentos, que abastecem os habitantes.
Ainda que na época estival a população da região aumente, por causa das férias, na maioria dos casos, as famílias serranas e os mais jovens, partem para trabalhar nas cidades e só voltam anos depois, para reconstruir as casas herdadas. Ou quando a reforma lhes reserva tempo para o descanso.
Com o sol a bater no pescoço – por aqui as temperaturas podem chegar aos 50ºC no Verão, devido à proximidade do norte de África -, o safari serrano continua. Ora em alcatrão, ora em terra, o jipe guina para a direita, numa descida acentuada, que faz contrair a barriga. Sacode os passageiros. «Que tal a massagem?», galhofa o Sr. Merca.
De cima, por entre montes e vales, começa a vislumbrar a cama de água da Barragem de Beliche. Romanzeiras, pereiras, amoras silvestres, laranjeiras de laranja amarga acompanham o caminho. Depois de atravessar um pequeno ribeiro, paragem para esticar as pernas. O sr. Merca dá a cheirar raminhos de poejo e menta.

De regresso à estrada, chegamos a Murteira de Baixo, onde a grande estrela é o Sr. António. Faz cestos decorativos. Mantém a tradição da cestaria, que esmoreceu com a utilização do plástico. Dona Idalina, a esposa, sugere a prova de mel de alecrim. E mostra as suas rendas de bilros. «É como escrever à máquina», diz sobre a sua arte. «Gosto muito de estar aqui porque foi aqui que nasci. Logo, o meu filho vem cá jantar. Passa cá o dia de amanhã e depois vai embora», continua. Reformada, intercala estadias na serra com temporadas em Faro, para cuidar do filho mais novo.
Cumpridas as despedidas, percorremos mais um quilómetro até chegar a Murteira de Cima. Aqui, há um forno e um poço comunitários. O telefone também é partilhado: está numa pequena casa, cuja chave está sempre na porta. Atende quem estiver mais perto.
Já calcorreámos cerca de 20 quilómetros. Agora, o alto da serra, de onde se vê Monte Gordo, Vila Real, Ayamonte e a barragem de Odeleite.
«Em Odeleite, os mortos vivem por cima dos vivos. Deve ser o único lugar em que isso acontece», graceja o Sr. Merca, ao chegar ao amontoado de casinhas instalado no fundo de cerro. O cemitério está no ponto mais alto. A igreja, no mais baixo.
«Mas é das zonas mais bonitas do Algarve», assegura, porém, enquanto justifica a opinião. Desculpa-se-lhe a franqueza quando revela que esta é a menina dos seus olhos, a sua terra. É aqui que a sua família ainda vive e é aqui que há-de vir passar a velhice. «Um dia também eu hei-de voltar», promete.


[Adaptação da autora, de texto publicado na Revista Essencial, do Semanário Sol]

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Turistas citadinos na serra do Cachopo

Por Elisabete Rodrigues
[Jornalista, membro do Núcleo do Algarve da Liga Para a Proteção da Natureza]

A minha passagem de ano de 2000 para 2001 foi feita na zona do Cachopo, integrando um grupo organizado pela associação Almargem, que dedicou três dias a calcorrear os trilhos serranos daquela zona do interior do concelho de Tavira.
Ficámos alojados numa pensão da aldeia, por cima do café-restaurante onde também jantávamos (e muito bem).
Verdadeiro Turismo de Natureza, deixando lucro localmente.
Como o nosso objetivo era andar a pé, o guarda-roupa era composto por botas de caminhada, roupa para andar ao frio e à chuva, ou seja, nada elegante.

Imagem de C.M.Tavira

Na noite da passagem de ano, o meu grupo de amigos resolveu indagar onde haveria uma festa à maneira para irmos dançar um bocadinho e beber um copo. A senhora do café do Cachopo lá nos indicou um baile numa aldeia que ficaria, em linha reta, aí a uns cinco quilómetros dali, mas que, pelas estradas da serra, ficava bem mais longe.
Limpámos as botas carregadas de lama, sacudimos as calças de caminhada para lhes dar um ar mais decente, colocámos uma camisola lavada e lá fomos nós, por montes e vales, até ao dito baile.
Quando entrámos no salão, já depois de sermos olhados meio de lado à porta, fez-se quase um silêncio, enquanto os locais nos observavam.
É que, na festa de passagem de ano daquela aldeia, pelos vistos muito famosa nas redondezas serranas porque estava a abarrotar de gente, todos se vestiam com as suas melhores roupas: elas de cabelos arranjados, maquilhagem, saias compridas e blusas brilhantes, eles de fato, colete e gravata (que iam tirando conforme o calor ou as cervejas bebidas).
E o nosso grupo de quatro pessoas ali estava no meio, com ar de quem tinha acabado de chegar da serra – e tinha! - e alguma lama agarrada às grossas botas de caminhada…
Mas, como as pessoas do campo são generosas, depressa deixaram de olhar para aquele grupo de quase marcianos citadinos e toda a gente continuou a dançar animadamente, ao som da vocalista-organista de serviço, de seu nome Sandrine.
Nós fartámo-nos também de dançar, inclusivamente com algumas das outras pessoas do baile (apesar de as botas não serem propriamente o calçado mais apropriado para danças…). No fim, até fomos pedir autógrafos à vocalista-organista (esclareça-se que, nesta altura, já tínhamos bebido uma boa quantidade de minis…).
O mais difícil da noite acabou mesmo por ser o regresso a Cachopo. É que eu, que era a motorista de serviço, me esqueci do caminho (terá sido das cervejas?...ou da dança?) e resolvi seguir a direito pela serra fora. Isto às 2h30 da manhã daquele dia 1 de janeiro de 2001, sem se ver vivalma nos trilhos serranos… Não dei parte de fraca e fui sempre conduzindo como se soubesse perfeitamente qual era o caminho. Ao fim de hora e meia de subidas e descidas em estradas que não faço a mínima ideia onde ficavam, acabámos milagrosamente por ir dar à estrada alcatroada, a um quilómetro do Cachopo e regressámos à civilização.
Ainda hoje guardo o cartão com o autógrafo da vocalista-organista Sandrine!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Preguiça

Por Maria de Sousa Martins
[Aposentada - Benfarras]

Ora, queres tu que eu te conte histórias de quando eu era moça nova… Eu tenho lá histórias para contar. A minha vida foi sempre a trabalhar. Trabalho. Só trabalho. Bem sabes que o meu pai – o teu avô – era rendeiro nas terras do Morgado de Quarteira. Tínhamos à nossa conta a Preguiça. Assim se chamava o bocado de terra que semeávamos.

[E o que é que lá semeavam, tia?]

Semeávamos trigo, cevada, milho, batata doce…íamos daqui de manhã cedinho, levávamos as vacas que por lá ficavam a pastar e só voltávamos à noite. Eram dias inteiros a regar. Às vezes até noite dentro. Mas, olha, tínhamos pão para comer o ano inteiro. Lembro-me de um ano em que o teu avô semeou um alqueire de trigo e acabou por arranjar 16 alqueires. Naquele tempo, nos anos 40, quando havia racionamento, nunca chegámos a ir para a bicha do pão que se vendia na casa da Ti Teresa Ramexida.

Mas trabalhi muito. Isso é que trabalhi. E não me hei-de esquecer de uma noite em que fiqui lá sozinha, com as vacas. Já era tarde e tínhamos que voltar no dia seguinte. A tua mãe e as outras manas regressaram a casa, mas para fazer o caminho com as vacas era mais demorado. Fiqui eu. Era por ocasião da feira de Quarteira, fins de Outubro. Olha, choveu tanto, mas tanto que repassou todo o abrigo que eu tinha debaixo do carro de mula. Molhou tudo, subiu a água na vala grande. Ai que dilúvio, menina.

[Oh tia, mas a que zona de Vilamoura é que corresponde hoje essa antiga terra da Preguiça?]

Shiiii, já nem deve dar para se reconhecer. Acho que já não existe lá a nora grande, mas parece que ainda lá está a carreira de oliveiras junto às quais passávamos à chegada à Preguiça. Diz a tua prima que é um pouco antes de chegar ao Posto da GNR. Eu cá não sei. Nunca mais para lá fui. Dizem que hoje é só casas para turistas. Às vezes penso por que raio é que se havia de chamar Preguiça a um sítio em que trabalhávamos tanto…Se calhar já lhe adivinhávamos o futuro, que hoje sim, só para lá se vai ao descanso.


Vilamoura

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Dar banho à linha

Por Patrick Guerreiro
[Auditor de Segurança - Faro]


Desde muito pequeno que me lembro dos verões passados na Ilha do Farol. O meu avô, pescador nato, tinha uma pequena casa nessa ilha e eu ia para lá passar as férias grandes da escola (na altura eram quase três meses) com ele e com a minha avó.

Lembro-me como se fosse hoje das brincadeiras, dos namoricos, das traquinices, da sensação de ser livre! Mas daquilo que me lembro melhor, e que até hoje me acompanha, é a minha enorme paixão pela pesca.

Com os meus sete anos, via os pescadores com as suas grandes canas e material de primeira e perguntava ao meu avô se me podia comprar... Ele, após muita insistência minha, lá acabou por ceder e deu-me uma cana, um carreto e chumbinhos para pôr na ponta do fio. Parecia que me tinha dado o mundo!

Certo dia, bem cedo (como qualquer pescador que se preze), peguei no meu material e fui para a beira de água e com toda a força atirei o fio para longe e esperei. Esperei… Esperei horas a fio. De vez em quando lá puxava a linha na esperança de que tivesse apanhado o almoço e... nada!

Triste mas não menos honrado pensei: “O problema é do sítio, os pescadores pescam no molhe e eu estou a tentar na ria!”

Ora bem, descoberto o problema e sem avisar a minha avó dirigi-me com toda a coragem para o molhe do farol e uma vez lá instalado lancei a minha cana e... nada! Todos os outros pescadores apanhavam peixe e eu não. Nisto passou-se um dia inteiro e nem me lembrei de comer. O vício era tão grande que lá fiquei até ser noite.

Quando me apercebi que as horas tinham passado, voltei para casa muito triste e desiludido: afinal de contas o peixe não gostava de mim.

Ao chegar ao início da praia já conseguia ouvir os gritos de desespero da minha avó que durante um dia inteirinho não soubera de mim. E eu nem sequer um peixe lhe trazia para apaziguar a situação…

Ao perceber a aflição da minha avó, e antes que ela me avistasse, decidi esconder-me no quintal do vizinho a chorar. Ele lá me viu:

“Rapaz, a tua avó busca-te como se não houvesse amanhã. Vais levá-las com o cinto!”
“Ajude-me Ti Felipe!
- pedi eu - Fui pescar para o molhe mas a minha avó ainda estava a dormir e eu não a avisei, e ainda por cima não apanhei nada e ela agora vai-me bater”.

O Ti Felipe desatou a rir.

“Mas acha que isto tem graça?!” - perguntei eu muito ofendido.
“Claro que tem! Atão tu querias pescar sem anzol e sem isco?”

Resultado: o meu avô, conhecendo a peste que eu era, não me deu anzóis nem me ensinou a iscar para que não me magoasse ou magoasse alguém. E eu tinha andado aquele tempo todo literalmente “a dar banho à linha” e a servir de diversão para os pescadores da Ilha do Farol.
Resolvido o mistério, o Ti Felipe foi comigo a casa da minha avó.

“Vitória, encontrei este filhe de Fare a tentar pescar na praia ma nã derem anzol nem isco ao moço...”
“Ai moço dum cabreste quê mate-te, fizeste-me andar com o coração nas mãos todo o dia, desorientada à tua precura e tavas na praia!! Anda cá que eu já te canto.”

E assim foi, levei uns valentes açoites para aprender a dizer sempre onde ia, mas principalmente aprendi que para apanhar peixe, para além de uma cana e de um carreto, é preciso anzol e isco! Esta paixão acompanha-me até hoje.


Créditos: Restaurante O Estaminé

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Estátua a uma mulher conserveira

Por Custódio Arménio
[Aposentado - Olhão]

Passo um milhão de vezes pela doca antiga onde há anos a prata viva, em forma de peixe, foi manipulada, descarregada e estivada por gerações de olhanenses, que fizeram do mar a sua vida e do molhe a sua casa.
Devagar, andando, misturo o som surdo do meus passos com o ténue murmúrio da Ria Formosa e, andando, passo pelo porto onde estão os barcos da carreira, quando o sol vai caindo pesaroso no anil do horizonte. Ao largo já se vê a luz do farol da Ilha. Sigo andando, sentindo o cheiro da maré, pensando no dia que já passou, no bulício provocado pela chegada da pescaria dos poucos barcos ainda resistentes neste lugar de pescadores que vivem da sua salgada mercadoria…



Fecho os olhos e imagino toda a azáfama entre caixas de peixe, gritos e alguns eternos protestos pelo preço do pescado “tive tode o dia no mar pá agora ganhar treseuro por caixa. Uns trabalham pa que os ôtres encham o cu”.
Deixo a pescaria e a sua memorável cantilena e sigo pensando que estes homens mereciam um monumento à sua grandeza, tantas vezes ignorada. Também as mulheres deste povo do mar mereciam uma estátua. Uma estátua de uma mulher magra, de mãos calejadas, sentada num banquinho, com sardinhas entre as suas mãos. Seria um símbolo de grandes obreiras.
A minha mente voa até um passado longínquo feito de grande azáfama, de um cais onde entravam e saíam barcos atrás de barcos e as sirenes das fábricas enchiam o ar com o seu apito. Imagino aqueles escravos do mar que eram os pobres marinheiros. E as filas de mulheres entrando nas fábricas. Tudo bulia, tudo era movimento de caixas, de montanhas de peixe, de filas de banquinhos povoados de mulheres, fêmeas pobres cuja única forma de levar um bocado de pão aos seus filhos era trabalhar, horas a fio, nas fábricas de conserva.
Fábricas que eram templos dos senhores que mandavam na pesca, que eram donos dos barcos, das redes, e algumas vezes, senhores do triste destino daquelas pobres mulheres, que à custa de suor e dores nas costas iam enchendo latas de mar.
Senhores que em nada se importavam com seguros ou benefícios sociais que nunca tiveram a bondade de assegurar a nenhum empregado. Muito menos a uma mulher… “era só o que faltava, dar direitos a essa cambada, que nem sabe ler”.
Senhores que à custa de costas doídas, quase quebradas, iam fazendo fortuna, comprando mais e mais casas na vila e na serra, pelos bons ares, e em Lisboa como gente da sociedade. Senhores que compravam propriedades para caçar, fazendo disso desporto, como os nobres.
Penso pois que essa gente humilde e verdadeiramente nobre merecia uma estátua, um monumento. Quantos homens não tiveram de se rebaixar para alimentar a avareza daqueles “senhores feudais”? Quantas casas ficaram sem filhos e quantas mulheres ficaram viúvas, para que os flamantes apelidos dessa classe duvidosa seguissem passando de geração em geração?
Uma escultura seria uma homenagem em forma de monumento, um pedido de perdão pelos pais que deixaram tantos meninos órfãos e sem a mínima ajuda dos armadores desses barcos que os levaram para o fundo do mar sem fim.
Deveria edificar-se uma estátua de uma mulher, sentada num banquinho, voltada de costas para as fábricas, com os olhos postos no horizonte a ver o esplendor do sol mergulhar nas águas da Ria Formosa, por onde correram sangue e lágrimas de tantas e tantas mulheres, que foram por ali secando a saúde, em busca de pão.

Olhão - vista aérea

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Lição de mariscar

Por João Amâncio
[spdh Tap Groundforce - Faro e proprietário Alambres Bar - Ilha do Farol]

Existia na ilha da Culatra um enorme barracão que outrora fora a casa do I.S.N. -Instituto de Socorros a Náufragos ou, simplesmente, Salva-Vidas e que foi aproveitado para escola primária. Foi aí que muitos homens e mulheres das ilhas da Ria Formosa aprenderam a ler.

Nós, os que vínhamos do Farol, levantávamo-nos bem cedo e íamos a pé até aos Hangares, onde nos juntávamos a outras crianças e seguíamos para a escola. Pelo caminho cabia aos mais velhos cuidar dos mais novos. Quando a maré estava vazia, um deles costumava ir apanhando amêijoas, que depois entregava numa venda na Culatra. Em troca, o dono dava-lhe um ou dois “pirolitos” (garrafas de refrigerante com um berlinde). Eram repartidos em golos por todos nós.
Mas como aquilo só dava um golito a cada um, eu resolvi também aprender a arte de apanhar as tais amêijoas e assim ter direito ao meu “pirolito”. Um inteiro, só para mim. Dito e feito, pedi ajuda ao meu irmão mais velho, que com muita paciência, lá me foi ensinando a perceber os sinais do marisco sob a areia.

Passados alguns dias, levei para a Culatra um punhado de amêijoas, que pus com grande vaidade em cima do velho balcão de madeira. Esperei ansioso pelo prémio… Quando o homem da venda mo deu, nem sei bem explicar o que senti. Corri para a rua e com as duas mãos bebi, bebi, sofregamente, quase engolindo a garrafa!
Estava eu a banquetear-me com tão saboroso troféu quando um colega de minha idade se aproximou e me pediu um golo. Olhei para ele e concluí que ele também podia ir apanhar amêijoas para ganhar o seu “pirolito”. Como neguei, o rapaz jurou ali mesmo que iria contar à minha mãe.

No final do dia, já em casa, ao ajudar-me a tirar o bibe, a minha mãe reparou que eu tinha os dois bolsos sujos de terra. Zangada, questionou -me. Disse lhe a verdade. Levei uma terrível reprimenda e uns puxões de orelha.
Deixei de mariscar, mas a dor de só ter direito a um golinho do tão precioso néctar arrasava-me completamente. Até que se fez luz na minha cabeça: arranjei uma latinha que cabia no bolso, punha lá as amêijoas e já não me sujava. Assim resolvi o problema sem a minha mãe saber.
No dia seguinte, quando íamos para a escola e a maré estava vazia tirei a lata da mala coloquei no bolso e comecei a minha faina. Cheguei à venda, troquei as amêijoas pelo pirolito. Estava a saboreá-lo, todo contente, quando chega outra vez o chato do meu colega a pedir um golito. Olhei para ele e para a garrafa e disse: não! Novamente ele ameaçou fazer queixa à minha mãe. Mas como o tempo foi passando e eu não levava o bibe sujo para casa, nada acontecia. Pensei que o assunto estava esquecido.

Certa manhã, o meu pai foi ter comigo à cama, dizendo que ia mariscar e que queria que o acompanhasse. Nesse dia, quando chegámos ao local certo (mar santo), disse-me que sabia de toda a história e que me queria ver a apanhar amêijoas tal como eu fazia a caminho da escola. Comecei logo a mostrar do que era capaz e ele levou a manhã a ensinar-me todos os truques para melhor capturar o precioso marisco. Deu-me uma verdadeira lição. Mais tarde, já no barco, pediu-me que não mais apanhasse amêijoas no trajecto da escola, acrescentando que o podia fazer sempre fora desse período.

Ainda hoje, passados tantos anos, eu não resisto. Sempre que estou na praia, espalho a vista pela areia, pronto a olhar nos olhos das amêijoas. E a apanhá-las. Um gosto que ficou da infância, com sabor a “pirolito”.
Onde queres que estejas, obrigado querido pai.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Claro Inverno

Por Luisa Correia
[Documentalista - Turismo do Algarve]

A manhã abriu-se clara, daquela claridade que só o céu algarvio pode proporcionar. Só o céu, não. O céu e o sol algarvios que se combinam para nos inundar de luz e de leveza.

E, com o céu e o sol algarvios por únicos guias, fiz-me ao caminho diário do trabalho. Neste percurso habitual, mas sempre cambiante ao sabor dos matizes do tempo, surpreenderam-me algumas amendoeiras já em flor. Juntaram a sua luz à luz do sol e, de repente, fiquei com os olhos de Gilda.

Então, qual princesa nórdica de memorável lenda, senti renascer em mim todo o alento, toda a força da vida que renasce. É o Inverno algarvio, como se fantasiado de Primavera.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Histórias com mais sabor


Por aqui se vão contando histórias algarvias com cunho pessoal. Trazem memórias, sentimentos, humor, cores e cheiros que ajudam a conhecer melhor a nossa região.

Até 28 de Fevereiro continuaremos a publicar as vossas e nossas histórias, em total liberdade temática.

A partir de 1 de Março lançamos um novo desafio.

Queremos convocar para este espaço os sabores do Algarve.

Queremos degustar convosco esta região.

Comecem já a procurar nos vossos livros de receitas o prato algarvio a que ninguém resiste. Preparem-se para nos contar que alimentos vos tiram do sério. Pensem comida. Pensem bebida.

Em breve começamos a pôr a mesa.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Tavira, história e natureza de mãos dadas

Por Miguel Peres dos Santos
[Historiador e Gestor Cultural - Tavira]

Desde cedo me apaixonei pelo estudo da História e pelas Artes. Penso que essa grande paixão se deveu a ter nascido e por viver na bela e monumental cidade de Tavira, cidade onde em cada recanto e em cada rua há uma história para contar, um segredo para revelar.

Quem chega a Tavira, vindo de norte pela A22, pode ver, no horizonte, o azul do mar, os areais das ilhas barreira que formam a maravilha natural que é a Ria Formosa, sempre acompanhado pelas torres sineiras das inúmeras igrejas que compõem o património religioso desta cidade. Este é sem dúvida o lugar por excelência onde a História e a Natureza andam de mãos dadas…

Lembro-me de diversas lendas que se contavam em torno da ocupação islâmica da cidade, que se relatavam no ensino primário e preparatório e que nos acompanhavam nas visitas de estudo pelas ruas estreitas do centro histórico. Falavam do amor entre cristãos e mouras, e levavam-nos a viajar no tempo. Eram histórias da época áurea da cidade, onde mercadores e navegadores se encontravam nas margens do Rio Gilão. Ou mesmo histórias da vida monástica em alguns templos, que ainda hoje resistem para contar um tempo passado. Ou então histórias da nobreza que aqui se fixou devido à beleza da paisagem e do espaço envolvente, que podemos contemplar no habitat natural e único que é a Ria Formosa, onde existem uma fauna e flora diversas, em ambiente protegido.

Estas histórias de encantar deixaram de fazer sentido quando me formei em Património Cultural, na Universidade do Algarve. As teses históricas contradizem as lendas que me fizeram apaixonar pela História e pelas Artes, apesar das lendas terem sempre um fundo de verdade que devemos ter em conta. Nunca deixei de me encantar pela procura do passado, pela busca de novos factos, pela busca de uma nova tese… mas principalmente nunca deixei de estar apaixonado, pelos encantos da minha Tavira.


Castelo de Tavira

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Armação de Pêra

Por Torquato da Luz
[Poeta e jornalista - Lisboa]


Tirem-me tudo: os dedos, os anéis,
a reserva de sonho e de quimera,
mas não sejam cruéis,
não me tirem Armação de Pêra.

Não me tirem o resto da infância
que sei ter deixado aqui
nem esta luz que à distância
me segue desde que parti.

Não me tirem o verde-azul do mar
nem os barquinhos balançando à espera
dos turistas que hão-de ir visitar
as furnas de Armação de Pêra.

Mas sobretudo não me tirem este sol
e a caldeirada do Serol.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Fado tinto

Por Odete Cordeiro
[Aposentada - Olhão]

Em meados dos anos 60, um grupo de 25 artistas, fadistas e respectivos acompanhantes à guitarra e à viola, veio actuar ao Clube Os Olhanenses. Do grupo fazia parte o meu pai, Joaquim Cordeiro, também fadista, a estreante Lenita Gentil, o Fernando Farinha, que foi padrinho de casamento da minha irmã mais nova, e o Luís Piçarra. Todos ainda muito jovens e parodiantes.




Joaquim Cordeiro - fadista olhanense

Durante a estadia em Olhão, a minha mãe, a conhecida Ti Laura Murta, ofereceu uma sardinhada à boa moda algarvia, à porta de casa, debaixo do pinheiro centenário que dava sombra e pinhões deliciosos.

Preparados os dois fogareiros, porque naquele tempo não havia barbecues, as sardinhas foram postas a assar. Saladinha, pão caseiro e um bom vinho tinto para acompanhar. Nada mais, nada menos do que cinco garrafões de cinco litros.

Comendo, bebendo e rindo, a comitiva às duas por três estava grogue. O Luis Piçarra, já com “grãozinho na asa”, decorou o pullover com tintol e como não havia outro para trocar, eu, muito prestável, lavei-o à mão no velho tanque da horta, junto à nora.

Mas ele não foi o único a dar sinal de tinto a mais, pois do outro lado da animada mesa, onde já se cantava o fado à desgarrada, eis senão quando a jovem Lenita Gentil, recém estreada nas lides do espectáculo, não se equilibrou na cadeira e tombou redonda no chão.

Foi levada em braços para a linda cama de ferro pintado de branco, que naquele tempo fazia parte da decoração das casas de campo. Nauseada e desnorteada, por culpa de um copito a mais da conta, a pobre deitou para fora tudo o que tinha entrado. A belíssima colcha de seda branca bordada, que fazia parte do enxoval das moças casadoiras de Olhão, como eu tinha sido, ficou marcada para sempre.

Foi um dia divertido apesar das peripécias. Tudo acabou em bem, tendo o espectáculo sido um sucesso, aclamado de pé, no velho Clube Os Olhanenses, na antiga Rua da Litografia.

Tempos que já não voltam.



Joaquim Cordeiro com Amália Rodrigues - 1965