sexta-feira, 11 de março de 2011

Apontamentos históricos sobre o vinho

Karl Heinz Stock, proprietário da Quinta dos Vales, em Estômbar, faz-nos uma resenha histórica do vinho em Portugal e particularmente no Algarve, onde se assiste a um renascer de vinhos de excelência, com forte aposta na qualidade.

O consumo moderado de vinho, especialmente tinto, ajuda a prevenir as doenças cardiovasculares e outras derivadas. Estas conclusões dos cientistas, divulgadas no final do século XX, são uma lembrança pungente das já esquecidas eras em que o vinho era reconhecido pelas suas propriedades benéficas para a saúde. Há cerca de quatro mil anos atrás, o “néctar dos deuses”, como era chamado, era uma parte importante da dieta diária da Península Ibérica.
Acredita-se que os Tartessos, que se estabeleceram em Portugal por volta de 2000 a.C., bebiam regularmente vinho como parte da sua dieta normal, porque lhes proporcionava algumas das calorias essenciais à sobrevivência. De facto, o vinho era geralmente preferido em detrimento da água que, uma vez tirada do poço, não conseguia manter-se fresca e limpa durante tanto tempo, ficando frequentemente contaminada. O álcool ajudava a preservar as bebidas e reduzia os riscos para a saúde, tal como hoje!
A história de Portugal está directamente ligada à cultura dos inúmeros povos que invadiram o país, desenvolveram relações de troca ou que se estabeleceram no território por períodos longos ou curtos. As nações que navegavam de Este para Norte, ou vice-versa, tinham obrigatoriamente de passar ao largo da costa portuguesa, por isso era normal estabelecerem-se feitorias ou domicílios permanentes no país. Estes primeiros colonos, entre os quais os fenícios, gregos e, mais tarde, no último milénio antes de Cristo, os celtas, introduziram novas castas e técnicas de produção de vinho, que criaram padrões relativamente elevados de produção vinícola.
Foi a chegada dos romanos, por volta de 200 a.C., que mais impacto teve nas técnicas de plantação e produção de vinho, em grande parte devido às grandes quantidades de vinhos de alta qualidade que eram necessárias para satisfazer os hábitos de bebida das legiões invasoras. Os vinhos fortes e frutados da Península Ibérica agraciavam as mesas da nobreza de Roma, onde a procura normalmente ultrapassava a capacidade de oferta. É interessante constatar que Portugal, uma região produtora de vinho, foi chamada de Lusitânia pelos romanos, numa referência ao mítico Luso, filho ou companheiro de Baco, o Deus da festa e do vinho.

O cultivo da vinha continuou a crescer durante os cinco séculos de ocupação moura, apesar dos obstáculos religiosos. À medida que o negócio da exportação cresceu, os vinhos portugueses começaram a gozar de reconhecimento global, culminando numa relação comercial crescente com Inglaterra no início do século XVIII, especialmente no sector dos vinhos fortificados, como o Porto. Pouco tempo depois, a região do Alto Douro, no norte de Portugal, tornou-se na primeira região demarcada de produção de vinho.

Esta ascensão teve um fim inesperado quando a temida peste filoxera acabou com a maioria das plantações de vinha da Europa, no século XIX, abalando gravemente a produção de vinho em Portugal e a posição do país no mercado internacional.
Hoje, Portugal está novamente no top dez dos países produtores de vinho do mundo. Tal pode ser atribuído ao trabalho dos produtores tradicionais do centro e norte do país, que lutaram pela qualidade e recuperaram uma reputação digna no mercado internacional.
Há cerca de 20 anos atrás, o sul de Portugal começou a atrair novos produtores de vinho, dinâmicos e modernos. Nos últimos tempos, um pequeno grupo empreendedor de produtores de vinho encontrou locais produtivos no Algarve, com condições favoráveis para um cultivo de sucesso. Isto, em combinação com a nova tecnologia e conhecimento, transformou a paisagem das vinhas e inaugurou uma nova era de vinhos premiados. O Algarve ganhou agora o seu espaço no mapa da produção de vinho com um objectivo – não a quantidade, mas a qualidade.

No que toca ao segredo dos ingredientes perfeitos de um vinho, tudo se resume a alguns elementos essenciais – o solo certo e o clima adequado (uma combinação definida nos círculos da vinicultura como “terroir”), e um tratamento cuidadoso e responsável do produtor. As vinhas do Algarve, confinadas a um anfiteatro protegido dos ventos do norte, têm um clima único que se caracteriza por uma média de três mil horas de sol por ano, o que beneficia os produtores da região.
O solo é também adequado, por isso existe potencial para cultivar excelentes uvas e, consequentemente, para criar excelentes vinhos.
A produção de vinho é a arte de combinar todos estes elementos essenciais, de modo a criar uma sinergia, e é isto que separa os bons dos excelentes – uma manutenção hábil das vinhas e precisão científica na adega, com o apoio da tecnologia moderna para que nada seja deixado ao acaso. Os motivados engenheiros utilizam técnicas de ponta para criar um activo a longo prazo em vez de pensarem a curto prazo.

Ao seguir uma restrita política de qualidade e não de quantidade, os promissores produtores do Algarve podem hoje concorrer num mercado competitivo, no qual Portugal está a produzir cerca de 80 variedades de uva. Nas quintas algarvias mais pequenas, cada vinho tem a sua personalidade e características próprias, devido ao casamento bem sucedido entre o “terroir” e a dedicação dos produtores. Isto é complementado por uma poda cuidadosamente controlada na vinha, que reduz a quantidade de uva produzida. Idealmente, a poda deve ser executada duas vezes por ano, a primeira em Janeiro e a segunda algumas semanas antes da colheita. Durante a primeira poda, são cortados apenas os ramos, de modo a reduzir a capacidade de produção, enquanto na segunda poda é removida uma grande quantidade de uvas quase maduras, por vezes até 50%. Este processo limita drasticamente a quantidade, mas aumenta a qualidade, pois o ritmo de crescimento da vinha e a sua capacidade de produzir boa fruta são aumentados simplesmente pelo facto de o processo ficar confinado a um menor número de receptores.

Quanto mais cuidada a poda, maior a qualidade. Por exemplo, a quantidade média produzida em Portugal para um hectare de vinha é de 10 mil quilos de uvas. Os produtores de vinho em massa do Novo Mundo produzem às vezes até 35 mil quilos, enquanto alguns dos novos produtores do Algarve reduzem muitas vezes essa quantidade para quatro mil quilos ou menos por hectare.


Por Karl Heinz Stock

quinta-feira, 10 de março de 2011

Strudel Algarvio

A Ana Borges confidenciou-nos ser uma apreciadora das artes da cozinha e de ter gostado do nosso desafio. De tal modo que decidiu inventar uma sobremesa inspirada nos sabores do sul.
Quando recebemos a sua receita de "Strudel Algarvio" ficámos bastante entusiasmados e decidimos logo experimentá-la.
Asseguramos que é mesmo uma delícia.



INGREDIENTES
1 embalagem de massa folhada
300 g de figos secos
2 maçãs reinetas
1 limão
100 g pinhões
100 g amêndoas moídas
100 g queijo mozzarela desfiado
1 colher de sopa de açúcar amarelo
Canela em pó
Mel
3 laranjas ou 4 tangerinas descascadas

PREPARAÇÃO
Tempo de preparação 10 minutos
Tempo de cozedura 30 minutos

Descascar as maçãs, retirar o caroço, cortar cada uma em 8 pedaços e regar com o sumo do limão.
Reservar a casca do limão.
Abrir a massa folhada e sobre a folha colocar, nesta ordem, por camadas:

1º a maçã e polvilhar com o açúcar amarelo e canela
2º sobre a maçã os figos desfeitos
3ª as amêndoas e os pinhões
4º o queijo que vai derreter e envolver todos os ingredientes
5º o mel sobre o queijo
6º as raspas da casca do limão sobre o mel
7º fechar a folha (pode ser em formato rectângulo ou quadrado)
8º colocar no forno já quente a 180º por 30 minutos.

Servir acompanhado de laranjas cortadas às rodelas e polvilhadas com canela, ou tangerinas cortadas as metades pela linha dos caroços e polvilhadas com canela.



Por Ana Borges

quarta-feira, 9 de março de 2011

O corpo e a alma

A Sofia Figueiredo que nos acompanha desde Berlim e que já nos brindou com deliciosas histórias anteriormente publicadas na nossa rubrica "Das Imagens às Palavras", vem mais uma vez encantar-nos com a magia dos seus textos e da alma algarvia que sai de um arroz de bacalhau com coentros.

Será que os objectos têm alma? Um poeta disse que sim, que basta acordá-la. E outro poeta disse que esta alma se pode perder, esvair, basta ter um passo no corpo mais rápido que o da alma.
Eu concordo com os dois poetas, mas digo também que a nossa alma não está só em nós, temos também um bocadinho da nossa alma nos que amamos, na nossa terra, na casa a que chamamos casa. E há bocadinhos da nossa alma que vão acordando, outros adormecendo, despertados pelas sensações de que os nossos sentidos são portadores, como o cheiro da terra molhada, o sabor da laranja acabada de apanhar, o sentir o sol quente na pele… Podia continuar a divagar até chegar ao arroz de marisco com muitos coentros, que sabe mesmo a casa. Que foi o que eu tentei fazer, versão arroz de bacalhau fresco, usando a técnica milenar que o povo algarvio usa e que passou da minha avó para a minha mãe e para mim.

Cortei duas cebolas aos cubinhos, um dente de alho, uma folha de louro e fritei em azeite importado directamente do Algarve. Quando a cebola começou a guinchar, juntei uma lata de tomate inteiro pelado, mexi, juntei um copo de vinho branco, mexi e tapei.
Deixei o calor do fogo brando exercer a sua função durante 10 minutos. Voltei a mexer e juntei os filetes de bacalhau fresco e flor de sal de Olhão.
Dez minutos depois, retirei e reservei o peixe. Juntei o arroz (que convém ser de bago gordo) e fui acrescentando água a ferver conforme o arroz a ia pedindo. Até o arroz já estar cozido. Entretanto já tinha picado um molho de coentros e descascado mais um dente de alho. Primeiro foi o peixe que voltou para a panela, depois foram os coentros e finalmente acrescentei um dente de alho picado com um gole do resto do tal azeite. Mexi tudo muito bem e os cheiros que emanaram da panela e a visão do “verde-coentro” e “vermelho-tomate” teletransportaram-me a casa por instantes.


Com os pés dois palmos acima do chão, a panela levou-me à mesa. Brindámos, comemos e deliciámo-nos.

Mas não sabe ao mesmo, mesmo que seja a réplica daquele maravilhoso arroz que se come na tasca do Zé Maria (aquela na Praia de Faro), ou em casa, na “casa-terra”, “casa-mãe”. Lá, tem outro sabor.

A este meu arroz, que levou todos os ingredientes faltou algo e os especialistas podem divagar sobre as diferenças de temperatura, de pressão, sobre as diferenças entre fogões e cozinheiros que explicam o sabor diferente que a mesma receita pode ter quando cozinhada em sítios diferentes e por pessoas diferentes, mas a mim não me enganam. O que acontece é que não se pode transportar a alma dos nossos objectos animados assim, na mala do avião, sem mais nem menos.





Por Sofia Figueiredo

segunda-feira, 7 de março de 2011

Cozido de grão à moda do Algarve

Ao recebermos esta receita do José Joaquim Oliveira, Quim Zé para os amigos, percebemos que estava mesmo na hora de a publicarmos. É que, por estes dias um pouco mais frescos que se têm feito sentir, nada vem mais a calhar do que um bom cozido de grão à algarvia. Vamos, por isso, juntar o aconchego deste prato às boas memórias de muitos algarvios, que bem se recordam de tempos em que toda a família se reunia à volta da mesa e partilhava esta comida tão tradicional da nossa gastronomia.

INGREDIENTES
250 g de grão
500 g de feijão verde
250 g de batatas
250 g de espinafres
1 fatia de abóbora-menina
300 g de carne de borrego para cozer
200 g de entremeada
200 g de entrecosto
1 chouriço de carne
1 chouriço mouro
200 g de pão caseiro (duro)
Sal q.b.
Hortelã q.b.

PREPARAÇÃO
Põe-se o grão de molho durante 12 a 15 horas. Passado esse tempo coze-se numa panela com água suficiente.
Coze-se separadamente a carne de borrego, a entremeada e o entrecosto (os chouriços cozem-se à parte). Depois das carnes estarem cozidas retiram-se da água.
Arranjam-se e lavam-se o feijão verde, as batatas, a abóbora cortada aos bocados (os espinafres põem-se em último) e juntam-se à água em que cozeram as carnes assim como o grão escorrido.
Depois de tudo cozido, cortam-se as carnes em bocados.


APRESENTAÇÃO
Dispõem-se numa travessa o grão, o feijão verde, as batatas, a abóbora e os espinafres. À volta colocam-se as carnes cortadas.

Cortam-se fatias de pão duro e colocam-se no fundo duma terrina. Espalham-se por cima raminhos de hortelã.
Deita-se o caldo sobre as fatias de pão.

Bom apetite!




Por José Joaquim Oliveira

sexta-feira, 4 de março de 2011

Os vinhos e a Região Vitivinícola do Algarve


Contamos hoje com a colaboração do Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve, Carlos Gracias, que nos fala da evolução sofrida nos últimos anos, no Algarve, no sector dos vinhos, nomeadamente da sua crescente qualificação e procura.


O desenvolvimento da vitivinicultura está intrinsecamente ligado ao nascimento da civilização e culturas europeias, particularmente na região Mediterrânea. A região vitivinícola do Algarve localizada no extremo Sul de Portugal, coincide geograficamente com o distrito de Faro. Toda a sua área corresponde à zona produtora de vinho regional Algarve e vinho licoroso de indicação geográfica "Algarve".

Na zona litoral, marginando a costa atlântica, localizam-se as quatro regiões produtoras de vinhos de"Denominação de Origem": DOC Lagos, DOC Lagoa, DOC Portimão e DOC Tavira.
A área total de vinha do Algarve abrange cerca de 2000 hectares, dos quais cerca de 500 têm vindo a ser reestruturados nos últimos 10 anos, com o recurso a novas castas e às mais modernas técnicas de instalação, condução e manutenção. Este facto permitiu normalizar a produção, que é actualmente na ordem dos 2 milhões de litros. Vinhos de qualidade aptos a serem certificados, na sua maioria comercializados como “Vinho Regional Algarve”.


A mais significativa mudança sofrida pela indústria do vinho nas décadas recentes foi uma melhoria geral da qualidade. Para merecer a designação de “vinho de qualidade”, não deverá apenas saber bem, como também contribuir para o bem-estar físico. Parece portanto, que consumir vinho regularmente, de forma responsável e com moderação (Wine Moderation), pode contribuir para uma maior longevidade e qualidade de vida.

Embora a qualidade média do vinho produzido na Europa, tenha atingido um recorde, os diferentes estilos e tipos de vinhos tornam-se cada vez mais uniformes. A proliferação da cultura das mais populares castas por todas as zonas do globo, associada às modernas técnicas e conhecimentos em enologia e viticultura, aumentam ainda mais a referida tendência para a uniformidade. Actualmente, esta realidade tende a inverter-se, tornando-se moda beber vinhos distintivos com enorme carácter regional e genético.


Hoje em dia, o “Mundo dos Vinhos” é maior e bastante mais diversificado. As indústrias do vinho operam agora em todas as regiões do Mundo, utilizando as redes de transportes modernas que existem à sua disposição, o que lhes permite exportar e importar com grande facilidade os seus produtos. O mundo globalizado actual já não se coaduna com visões românticas em relação ao vinho; a atracção do vinho abrange, agora, todas as camadas da população, tornando-se um produto de transformação e consumo em massa.

As diferentes referências de vinhos à disposição dos consumidores são enormes, mesmo para os peritos do sector. No entanto podemos tentar dividi-las em quatro grandes categorias:
- O maior grupo com um padrão de qualidade mínimo, é o que é comercializado a baixos preços no mercado;
- O segundo grupo engloba vinhos modernos para consumidores mais sofisticados e a preços elevados que justificam o seu prestígio;
- A terceira categoria inclui os “vinhos tradicionais”, no melhor sentido do termo, que estão a ter um real crescimento junto dos consumidores conhecedores. Estes vinhos são produzidos e engarrafados perto das vinhas com os melhores cuidados e sentido de responsabilidade, utilizando métodos “naturais” tanto na vinha como na adega. Reflectem as características das castas regionais de uvas de que são feitos e a sua maior vantagem é o facto de serem “fáceis de beber” e da relação qualidade/preço ser facilmente compreendida pelo consumidor;
- O quarto grupo, mais pequeno, reúne os vinhos verdadeiramente notáveis e de alta qualidade, que são comercializados a elevadíssimos preços no mercado e consumido apenas pelas elites.



Não querendo fazer juízos, deixo para vossa reflexão a potencial inclusão dos “Vinhos do Algarve” numa dessas categorias, reforçando a ideia de que a região pretende afirmar-se, não pela quantidade, mas sim pela qualidade e especificidade das suas produções que, aliadas a sua localização única, de influência mediterrânea e atlântica, conferem características especiais aos vinhos aqui produzidos, determinadas essencialmente pelo “Terroir” e competência do vitivinicultor e enólogo.

De realçar ainda, que a qualidade dos “Vinhos do Algarve”, tem vindo a ser reconhecida e a comprová-lo estão as várias distinções obtidas em prestigiados concursos nacionais e internacionais, nomeadamente a atribuição de medalhas ouro, prata e bronze no Concurso Mundial de Bruxelas 2010, no IWC – International Wine Challenge 2010 em Inglaterra, no Concurso Les Citadelles du Vin 2010 (Bordeaux/França), no Wine Masters Challenge of Estoril 2010 e no Concurso Nacional de Vinhos Engarrafados.





Por Carlos Gracias

quinta-feira, 3 de março de 2011

Terrina de foie gras panado em farinha granulada de alfarroba, com chutney de laranja e cilindro crocante de batata doce

Contamos hoje com a visita do Chef João Escoval que, embora a trabalhar no Mónaco, não quis deixar de se associar à divulgação dos Sabores do Algarve e nos brinda com um prato de nouvelle cuisine baseado em produtos tradicionais do Algarve.

Terrina de foie gras


INGREDIENTES
300 g de fígado de pato
1 dl de vinho do porto
1 dl de conhaque
4 g de flor de laranjeira
10 g de sal
5 g de pimenta preta

PREPARAÇÃO
Juntam-se os ingredientes todos com o fígado de pato; coloca-se tudo num tabuleiro e vai ao forno a 100 graus até atingir 38 graus no interior do fígado. Escorre-se e coloca-se numa forma bem compacta.

Chutney de laranja


INGREDIENTES
5 laranjas
100 g açúcar
2 dl vinagre de cidra
1 g de raspa de laranja

PREPARAÇÃO
Descascam-se as laranjas, picam-se e junta-se o açúcar, o vinagre e as raspas de laranja. Coloca-se num tacho e leva-se ao lume a reduzir até atingir o ponto estrada.

Cilindro de batata doce crocante


INGREDIENTES
1 batata doce

PREPARAÇÃO
Lamina-se a batata finamente, enrrola-se num cilindro de inox e leva-se ao forno até ficar dourada.

Farinha granulada de alfarroba


INGREDIENTES
Alfarroba em grão

PREPARAÇÃO
Coze-se a alfarroba em água e sal, põe-se no forno a 80 graus durante 4 horas e deixa-se desidratar. Retira-se e pica-se bem, vai ficar com uma textura de farinha granulada.

MONTAGEM
Corta-se o fígado de pato em forma de cubo, pana-se com a farinha de alfarroba e cora-se um pouco numa frigideira com azeite. Coloca-se no prato e de seguida derrete-se um pouco de chocolate negro e pincela-se na borda do prato. Entretanto coloca-se também o cilindro crocante de batata doce, panando-o também nas bordas com um pouco de farinha de alfarroba pois irá embelezar mais o prato. Entretanto, com a ajuda de duas colheres de sopa faz-se um quenéle com o chutney de laranja. Quenéle é o nome técnico da forma que vamos dar ao chutney.
E assim temos um prato idealizado só com produtos algarvios, alterando completamente a maneira habitual de os usar, praticando um pouco de nouvelle cuisine, mas nunca estrangando a essência que os produtos têm.




Por Chef João Escoval

quarta-feira, 2 de março de 2011

Estrelas de Figo e Amêndoa

A Maria José Rosado, que nos segue a partir da ponta mais ocidental da Europa - Sagres - vem aqui partilhar connosco um doce bem característico do Algarve ou não fossem os figos e as amêndoas produtos símbolos desta região.
Vejam como ela faz e experimentem também. São uma delícia.


Hoje venho mostrar-vos um petisco típico do Algarve: as estrelas feitas com figo e amêndoa.
São habitualmente confeccionadas na altura do Dia de Todos os Santos (01 de Novembro) e por muita gente chamadas de "estrelas dos santos". Não são mais do que figos secos e amêndoas torrados no forno. Muito simples de executar e perfeitas para acompanhar um bom cálice de medronho algarvio ou um licor à vossa escolha.


INGREDIENTES
Figos secos q.b.
Miolo de amêndoa q.b.
PREPARAÇÃO
Começar por pelar as amêndoas: colocar as amêndoas com pele num alguidar, cobri-las com água a ferver, tapar e deixar arrefecer a água. Depois basta pressionar ligeiramente as amêndoas entre o polegar e o indicador, para que a pele se solte. Cortar o miolo de amêndoa ao meio no sentido do comprimento. Espalmar ligeiramente os figos entre as mãos, para que fiquem achatados. Para as estrelas redondas: dar um corte ao figo a toda a volta, sem o separar na totalidade, e dispor as amêndoas em volta, pressionando bem para que não se descolem. Para o formato de estrela: dar um corte em cruz ao figo, separando as pontas. Uni-los dois a dois e dispor as amêndoas em volta, pressionando bem para que mantenham a forma. Levar ao forno num tabuleiro (não é preciso untar nem forrar o tabuleiro). O tempo de cozedura depende da potência do forno e de como as preferem - mais ou menos tostadas (as minhas ficaram cerca de 20 minutos com o forno a 200º). Retirá-las do forno e, depois de frias, colocá-las numa caixa plástica ou numa lata para que não amoleçam.

Aguentam-se bastante tempo e é um petisco que sabe bem a qualquer altura do dia.






Por Maria José Rosado

terça-feira, 1 de março de 2011

Chocos com favas

Meu querido amigo e vizinho, você mete-me em cada sarilho!!!!
Primeiro foram as fotos do nosso Algarve antigo, antes dos explosivos anos setenta, depois as estórias desse mesmo Algarve antigo, ou mais moderno, fantasioso, lendário, mas sempre lindo, e como se isso não bastasse, desafia-me agora no campo da culinária. Poderia parecer que aí eu me iria sentir completamente à vontade, não é verdade? Mas não, querido amigo e vizinho, esse não é o meu assunto favorito, mas não resisto a contar-lhe mais uma estória, esta relacionada com “comida”, e a dar-lhe a respectiva receita.

Há uns anos atrás, talvez uns vinte e cinco, mais ou menos, eu trabalhava numa empresa de carros de aluguer sem condutor e entre todas as pessoas que comigo trabalhavam havia um senhor que nos lavava os automóveis com todo esmero e cuidado. Já não era muito novo mas a sua figura franzina dava-lhe um ar gaiato e eu gostava de conversar com ele, de ouvir falar de coisas antigas quando ele se dedicava a arranjar “bicicletas a pedal”. Como ele próprio se definia, o Sr. Chico era um homem “alpercatado”, que eu acho que queria dizer prevenido. Um dia, quando já nos preparávamos para ir para casa, o Sr. Chico disse-me:

Hoje, para o jantar tenho um bom petisco: CHOCOS COM FAVAS.

Escrevi CHOCOS COM FAVAS, em maiúsculas, para que tentem perceber o impacto, que essas palavras me causaram. Foi como se a vida tivesse andado para trás de repente. Há quanto tempo eu não ouvia tal coisa: CHOCOS COM FAVAS. Lembrei-me que esse era um prato que se costumava fazer na casa dos meus pais mas com o qual nunca mais tinha tido nenhum contacto. Não sei porquê, esse não era um prato habitual nos restaurantes, embora fosse típico de um Algarve um pouco mais antigo e, como tal, eu tinha esquecido que ele existia. Que saudades senti! E nesse mesmo dia, recorrendo a produtos congelados, cozinhei os meus CHOCOS COM FAVAS.

Esqueci-me de contar a cara feia que o meu marido fez quando lhe disse que o jantar ia ser CHOCOS COM FAVAS, mas gostou e ficou ainda a gostar mais, quando, com mais tempo, voltei a fazer o mesmo prato, com chocos frescos da nossa Ria Formosa e favas frescas de S. Brás de Alportel, como se fazia na minha infância, em casa dos meus pais.

Aí vai a receita.

Prontos para irem para o tacho

INGREDIENTES:
800 gramas de chocos
4 dentes de alho
1 cebola
40 gramas de margarina
1/2 decilitro de azeite
600 gramas de favas descascadas
30 gramas de bacon
1 colher de sopa de coentros picados
Sal q.b.


PREPARAÇÃO:
Lave muito bem os chocos e deixe-os a escorrer. Descasque e pique os dentes de alho e a cebola e leve a alourar com a margarina e o azeite. Junte os chocos bem escorridos e deixe cozinhar, tapado, sobre lume brando até os chocos estarem macios. Entretanto, coza as favas descascadas, em água temperada com o bacon e sal até estarem macias. Tempere os chocos com sal e junte-lhes as favas bem escorridas. Misture muito bem, disponha no prato de serviço e polvilhe com os coentros picados.




Por Ilídia Sério

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Algarve

Por Turismo do Algarve

[Para concluir a série de histórias que temos vindo a publicar na rubrica "Das Imagens às Palavras", pedimos a um grupo de colegas do Turismo do Algarve para se associarem num jogo literário conhecido como "cadáver esquisito" - cadavre-exquis, na expressão original - que foi inventado por surrealistas franceses em 1925. Trata-se de um texto colectivo, em que cada autor intervém da maneira que deseja, porém dobrando o papel para que os demais colaboradores não tenham conhecimento do que foi escrito. O tema foi obviamente o Algarve e os participantes esperam que os seguidores deste blogue se divirtam tanto a lê-lo como os autores se divertiram a escrevê-lo.]


Quando o Algarve faz parte da nossa vida jamais conseguiremos afastarmo-nos dele. Podemos sair para outras paragens, residir noutros locais, mas voltaremos sempre a ele. É por isso que adoro a ideia! Sempre que posso, volto a repetir e não me canso… É um vício, daqueles que só aqui nos apanham a jeito. Preferia apanhá-las eu, gordas e sumarentas nos galhos, mas com destino mais feliz na minha barriguinha.
Oh, belas laranjas…
Adoro, adoro! Lindas e suculentas, não fossem elas algarvias!
Sem dúvida que as algarvias sempre foram consideradas das mulheres mais bonitas de Portugal. É o sangue dos seus antepassados que se reflecte na beleza destas mulheres. É que tendo o Algarve sido sempre um destino de passagem de diferentes povos que se misturaram com os anteriores, o resultado foi o de uma mulher inigualável em Portugal.
Também, recentemente e devido a novos imigrantes que aqui se fixaram, as algarvias estão de novo a mudar de imagem.
No entanto, mantêm-se algarvias e marafadas. Ai de quem se atreva a contrariá-las. Em algumas zonas, ainda se arrisca a ser alvo das suas divertidas e arrasadoras pragas. Não que eu seja de acreditar nelas, mas que as há… experimentem pisar o risco e aguentem-se à bronca. E não digam que não avisei.
Tantos avisos, só de quem tem sisos! Prefiro a corrida libertina na praia quando já ninguém a pisa, torrar a pele até ao dourado do amendoim, abrir as narinas para os medronheiros e amendoeiras, ser um pouco mais eu no azul do Algarve.
Azul do céu, azul do mar que quando se tocam no horizonte são um só, como um casal de namorados percorrendo a região, descobrem os seus segredos.
Os segredos do Algarve são sem dúvida para descobrir. A Barlavento ou a Sotavento, vá à aventura e descubra esta região rica em belezas naturais.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Sabores do Algarve

Já começámos a abastecer a nossa despensa, já fomos pedir uns conselhos a quem sabe e já começámos a pôr a mesa para receber os Sabores do Algarve a partir do próximo dia 1 de Março.

Deixamos aqui o convite para que se juntem a nós na divulgação da gastronomia e dos vinhos algarvios .

Para isso só têm que começar a enviar-nos as vossas receitas, os vossos conselhos culinários, as vossas histórias de comida algarvia, as vossas dicas de vinhos ou outras bebidas regionais. Ah e não se esqueçam dos doces!

Tal como temos vindo a publicar as vossas histórias do Algarve, vamos publicar as vossas histórias gastronómicas. E não só as vossas. Também vamos contar com a colaboração de enólogos, produtores de vinhos e até vão passar por aqui grandes Chefs que nos farão a demonstração da sua arte.

Que tal? Não estão já com água na boca?

Nós estamos ansiosos por receber as vossas especialidades e começar o repasto.

Enviem, por favor, os vossos contributos para saboresdoalgarve@turismodoalgarve.pt e sempre que possível não se esqueçam de enviar também fotografias.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A empreita

Por Luisa Correia
[Documentalista -Turismo do Algarve]

Os ramos de palma eram, primeiro, postos a secar. Pareciam pequenos leques que, depois, haviam de ser rasgados pelos dedos ágeis da avó que, com o polegar, separava cada fina folha da palmeira anã. Com o seu gesto brusco e firme, soltavam-se minúsculas partículas de pó que pousavam sobre a roupa preta que vestia, atenuando-lhe o luto com uma frágil película de cor bege.

Depois ainda era preciso demolhar a palma para que pudesse ser entrançada sem quebrar. Já não sei se era antes ou se era depois mas, na preparação da empreita havia também aquele momento fascinante para mim, criança, quando a avó colocava um pequeno pedaço de enxofre numa lata e lhe deitava fogo. Acho que era uma velha lata de graxa para sapatos. Uma chama azul tremia no ar por breves instantes, só o tempo da avó agarrar na lata com uma tenaz e a fechar num grande saco onde já estavam as folhas de palma para serem branqueadas.

Por fim, os dedos da avó começavam a trabalhar e era algo de mágico ver crescer aquela trança, mais ou menos larga consoante o número de hastes que se cruzavam umas nas outras. As tiras de empreita iam crescendo e ficavam arrumadas em rolos, até ao momento em que viriam a dar forma a uma alcofa. A avó, sentada na pequena cadeira de atabua, com um molho de palma enrolado num trapo velho humedecido, fazia empreita escolhendo com arte cada folha, ripando as mais largas com os dentes para que a tira fosse sempre crescendo certinha.

E a baracinha? Claro. Também havia que fazer a baracinha, o fio que servia para cozer as tiras de empreita.

Também eu fazia baracinha. E tinha jeito para a coisa. Enrolava a folha de palma à vota do dedo que servia de esticador no início do trabalho. Depois de algumas torcidas na folha, já podia soltar o dedo e continuar a torcer, acrescentando as folhas necessárias até a baracinha atingir o comprimento ideal.

Lembro-me também da agulha de cobre que guiava a baracinha por entre as folhas entrançadas da empreita. Era uma agulha gigante e achatada. Pergunto-me se ainda a encontrarei por aí, esquecida numa qualquer gaveta. É que há tanto tempo que ninguém faz empreita lá em casa.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Surf na Praia de Faro

Por Luis Nadkarni
[Monitor de desporto - Faro]

No ano de 1984 o meu amigo António Gago -"Tó Zé"- convidou-me para colaborar na organização de um Campeonato de Surf na Praia de Faro. Como desde sempre considerei o Surf um desporto de virtudes, aceitei e decidi levar a cabo a organização deste evento dando o melhor de mim mesmo.

Tive vários encontros com o Tó Zé e resolvi, com a sua colaboração, compor uma música que seria o cartaz de apresentação deste Campeonato. Assim nasceu o tema "Surfaro", que se tornou bastante conhecido.

Contactei a Câmara de Faro, conseguindo que as instalações da sua antiga Colónia de Férias, na zona nascente da Praia de Faro, fossem disponibilizadas para alojamento dos surfistas que participavam nesta prova a nível nacional.

Tudo correu pelo melhor e durante os dois dias de Campeonato e até as condições de mar e meteorológicas ajudaram, tendo entrado um "mar de fora" que proporcionou momentos de excelente surf.
A componente social foi de extrema importância para o sucesso desta organização, tendo o "quartel-general" sido montado no Restaurante "Zé Maria" na Praia de Faro, realizando-se festas de confraternização na antiga discoteca "Desvio" e entrega de prémios na "Barracuda".

Este evento atraiu a Faro surfistas de renome nacional e internacional como Ratinho, Dapim, Nuno Jonet, entre outros. O melhor surfista algarvio nesta prova foi o atleta farense Rebocho que teve uma excelente prestação.

Viveram-se neste Campeonato momentos de grande satisfação, ficando o evento na memória de todos aqueles que, na altura, e actualmente têm o Surf como desporto de eleição.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Aulas de Geografia

Por Ana Margarida Rodrigues
[Técnica de Turismo - Quarteira]

Já por aqui lemos histórias que incidem sobre os conhecimentos geográficos – ou sobre a falta deles – dos nossos queridos turistas. Tal como sucedeu com alguns visitantes de Tavira e de Armação de Pêra, também por Quarteira têm passado algumas pessoas a necessitar de orientação geográfica.

Registem-se então dois casos que me aconteceram no Posto de Turismo de Quarteira.

No final do Verão passado atendi uma turista de nacionalidade espanhola que procurava um mapa do Algarve para se situar pois tinha algumas dúvidas. Depois de lhe apresentar o mapa e lhe indicar onde nos encontrávamos a cliente perguntou:
“A ver… entonces de aqui hasta Lisboa és Algarve e arriba de Lisboa és todo Galicia, no?”
Fiquei de tal forma siderada pela pergunta da senhora que gaguejei repetidamente até conseguir finalmente recuperar, mostrar-lhe um mapa de Portugal e dar-lhe, muito resumidamente, uma “aulinha” sobre a Península Ibérica.

Outra situação caricata e deveras divertida foi a da visita de uma idosa de nacionalidade canadiana que se deslocava com a ajuda de duas muletas e levantando uma, apontou para leste e perguntou:
“Quanto tempo para chegar a Espanha?”
Ao que nós indagámos:
“De carro ou de transportes públicos?”
Muito airosa a senhora respondeu:
"Não, não, a pé pela praia!"

Palavras para quê?


Quarteira

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Ilha de Faro (anos 45/54)

Por Lina Vedes
[Escritora algarvia]

Havia só uma possibilidade de chegar à praia, o barco. A partir dos meus oito anos comecei a frequentá-la com alguma assiduidade, perdendo o medo e tirando prazer.
Tenho como recordação negativa, a mãe contratar um banheiro para me mergulhar nas ondas da costa. Nada mais do que sete mergulhos. Era da praxe para dar sorte… não sei se à vida!
Da primeira vez fui apanhada de surpresa, agarrada pelas costas sem possibilidade de me safar. O tal homem, intitulado banheiro, tapou-me a boca e nariz com a manápula, prendeu-me as pernas entre as dele e com o outro braço rodeou-me a cintura. Na água, começou a contagem, 1…2…3…e pumba, mergulho após mergulho, sem espaço para respirar.
Uma experiência de terror absoluto.
A segunda vez, já alertada, apercebi-me de alguém que, sorrateiramente, se aproximava. Mudei de lugar e vi as manobras. Desatei a correr empregando o máximo esforço. Ninguém sabe, o que se sente, quando se verifica que se vai ser apanhado sem salvação possível. Corria, sabendo que seria alcançada, mas corria desesperadamente, na esperança louca de me salvar. O coração a martelar, a boca seca, a cabeça a explodir… e as forças a falharem…

A mãe, ao aperceber-se do meu pânico e pela experiência anterior, salvou-me desse segundo banho.
Uma ida à praia envolvia um grande ritual.
Normalmente era ao sábado ou domingo, ficávamos todo o dia e tínhamos de levar comida.
Levantávamo-nos cedo para fazer o almoço, arroz com choco, bacalhau ou carne, retirado do lume antes de estar completamente cozido para que o arroz, na altura de servir, estivesse mais saboroso. O tacho era embrulhado em papel de jornal para o manter quente e guardado na saca de transporte. Levávamos pão, banha corada e às vezes lá aparecia uma fatia de fiambre ou queijo e uma peça de fruta por pessoa.
Havia que levar pratos, talheres, copos, toalhas e guardanapos (ainda não havia descartáveis). Não faltava um garrafão com vinho e outro com água e nos dias de melancia, era escolhida a maior.
O toldo implicava 4 paus, cada um com um metro e pouco. A dois deles, estava preso o pano, esticado e cosido, tendo cordas penduradas em cada extremidade. Os outros dois eram espetados na areia e suspendiam o pano na parte superior. Era um bom peso a ser transportado aos ombros do meu pai.


Imagem de Augusto Martins- Passatempo Algarve Vintage


Toda a família era envolvida para transportar os sacos até ao barco. Descíamos a rua Baleizão, virávamos no hotel Faro, atravessávamos todo o jardim, a zona do mercado e aí já começávamos a ouvir os apitos do “gasolina” a apressar o pessoal para o embarque. A carga pesava bastante, tornava-se incómoda e precisávamos de nos apressar. Sabíamos que o gasolina só partia quando cheio, mas nós queríamos um lugar sentados. Eu e o meu irmão preferíamos o tejadilho.
A mãe coordenava a concentração dos sacos com o tacho e utensílios correspondentes, dos garrafões e melancia, do toldo, das toalhas e roupa, tudo junto de nós e preparava os trocos para o pagamento, vinte e cinco tostões por pessoa.
Havia que aguardar que o barco enchesse e de que maneira?!
Até transbordar, sacos em cima de sacos, pessoas em cima de pessoas, sentados, de pé, agarrados do lado de fora, valia tudo…
Mais um apito e lá começava a tarefa de desamarrar o barco da ponte. Já em ligeiro andamento, surgiam sempre três ou quatro atrasados que provocam mais uma demora e mais um encaixar de pessoas. Finalmente, o barco arrancava, deitando fumo por todo o lado e cheirando, profundamente, a gasóleo…
Existiram vários barcos fazendo a carreira entre Faro e a Praia.
O primeiro a surgir levava, unicamente, 20 pessoas e pertencia a uma empresa de Vila Real de Santo António. O senhor António Evaristo Santos, proprietário das camionetas Santos, que circulavam entre Faro e S. Brás, adquiriu o barco – “Praia de Faro”.
O “Ria Formosa” administrado pelo senhor Marum, o” Isabel Maria” pertença do senhor conhecido por Cantiguinha, o “Gavião” e o “Alegria” foram mais tarde pertença de Francisco do Carmo, conhecido por Chico Alemão, cujo filho, com o mesmo nome trabalhou com ele (informações colhidas junto do Chico/filho).
Mestre Chico, proprietário, dava as ordens. Homens à proa e à ré e ele ao volante, na sua cabine, procurando encaminhar o barco no rego de água mais fundo. Muitas vezes o barco encalhava, durante a maré baixa, obrigando a uma paragem forçada no meio da ria, e lá ficávamos até a maré encher. Chegámos a estar uma hora e mais, dentro do barco, retardando a chegada à praia ou a casa, se fossemos apanhados no regresso.
Dava uma boa reportagem fotográfica o espectáculo de um barco transbordando de pessoal que dava” palpites”para a resolução do problema. Havia telefonias em altos berros, gente barafustando, crianças chorando… e dores de barriga só aliviadas num buraco, entre tábuas, a encobrirem a intimidade de cada um.

Imagem de Nuno Graça-Passatempo Algarve Vintage


Chegados à praia, havia três locais de desembarque, a ponte do meio, a de cima e a de baixo. Normalmente, as pessoas saíam todas ao meio da praia, porque os extremos eram para quem tinha casa.
O sair do barco, depois de amarrado à ponte, era outro espectáculo. Atropelos, medo de sair e de pôr o pé na ponte, bagagem perdida, pressa de chegar, tudo complicava.
As pessoas dividiam-se. Uns ficavam à beira ria, com areia branca e água maravilhosa, com a possibilidade de dar mergulhos da ponte. Outros iam para a costa, que ficava distante.
Decisão tomada impunham-se mais tarefas até se poder respirar e dizer: - Finalmente!
Havia que montar o toldo no lugar escolhido, colocar os sacos à sombra, enterrar os garrafões na areia, junto à rebentação, para refrescarem os líquidos contidos e por fim o tão desejado banho.
A ria proporcionava às crianças prazer máximo com pouco perigo e naquela altura não havia poluição (nem se sabia o que isso era). Quando não se levava toldo, podíamos ficar debaixo da ponte. Só que, a maré ao subir, reduzia-nos o espaço e ficávamos uns por cima dos outros.
Na costa, havia o perigo das ondas, mas o espaço era grande e podíamos estar à larga, sem implicar com vizinhos indesejáveis.
A distância da ria à costa era feita por um extenso areal, cheio de pitas secas, que se espetavam nos pés. Existiam poucas casas e a língua de areia triplicava o tamanho actual.
À hora do almoço começava nova cena. Mãos limpas, todos sentados na areia, toalha no centro com a panela, pratos e talheres distribuídos. A mãe punha a comida a cada um, mas aconteciam sempre acidentes. Água ou vinho derramados, areia no ar, guerra aos mais pequenos que não sossegavam.
Acabada a refeição os pratos eram lavados na água do mar, esfregados com a areia e os lixos eram enterrados (não existiam caixotes de lixo, nem educação ambiental).
Tudo era guardado com mais arrumação e menos peso. Duas horas infindáveis para a digestão, e de novo o desejado banho.
Perto das 19 horas, o regresso ao barco, com a ponte repleta de pessoas, numa fila infindável.
A viagem de regresso era idêntica, com a mesma confusão e a mesma possibilidade do barco encalhar.
Este era o nosso Mundo, a nossa possibilidade única de ir à praia.
Não conhecíamos outra, não tínhamos escolha, mas a felicidade reinava!!!!!!!!!

Doca de Faro

[Crónica gentilmente cedida pela autora e anteriomente publicada no livro "Pedaços d'Ontem na Cidade de Faro"]

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Sabores do Algarve


Estamos na recta final da iniciativa que ao longo destes meses tem motivado o interesse dos nossos leitores e queremos agradecer a todos os que têm participado activamente com o envio de histórias para divulgação na rubrica "Das Imagens às Palavras".

Como sabem, já só falta uma semana para começarmos a publicar outras histórias... essas queremo-las com os cheiros e os sabores da boa mesa algarvia.

A propósito...
Já começaram a reunir os ingredientes de que vão necessitar para nos fazer crescer a água na boca?
Já escolheram bem que receitas nos vão enviar?
Já anotaram os pormenores imperdíveis daquela odisseia culinária que para sempre ficará na vossa memória?

Preparem já os vossos contributos e comecem a enviá-los para saboresdoalgarve@turismodoalgarve.pt

Vai ser de comer e chorar por mais!






quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os surfistas da cortiça

Por Sofia Cavaco Silva
[Jornalista - Loulé]

As memórias da minha infância não são feitas apenas do que fiz e do que vivi... são também recheadas de histórias e episódios que me foram contando pais, avós e tios.
Pertenço a uma família que tem uma ligação sólida com o interior algarvio e na qual as tradições foram passando “a olho” e também pelo poder da voz.
Por isso mesmo, há recordações que não sendo minhas me invadem cada vez que visito a terra natal dos meus avós e do meu pai. Estou a falar da antiga freguesia de Querença, que deu origem às actuais freguesias da Tôr e de Querença.
Ao longo da ribeira que atravessa essas freguesias e da Fonte da Benémola até à Ponte Romana da Tôr, quase cada recanto ou pego tem para mim uma recordação de brincadeiras com os meus primos ou de histórias que me contaram.
Foram muitas as vezes que durante o Verão fui com a minha avó Odete tomar banho ao pego junto do chamado “Castelo” da Quinta da Ombria. Águas límpidas onde nos refrescávamos no pico do Verão.
Como ainda não sabia nadar, ficava-me pela zona onde havia pé... mas confesso que sempre invejei a “malta” que se bamboleava numa corda atada a uma árvore como se fossem uns tarzans, atirando-se à água da forma mais “espampanante” possível!

Numa dessas vezes, o meu pai estava comigo e contou-me mais uma história de quando era pequeno e brincava na ribeira com os seus amigos... Contou-me que ele, o meu tio e um amigo arranjavam pedaços de cortiça e se punham a boiar e a nadar com eles pela ribeira fora.
Ainda hoje, de vez em quando, me recordo da frase que um deles disse: “Fomos os primeiros surfistas de Querença!”.
Pois calculo que sim... nunca vi a brincadeira replicada, ainda que a tente recriar mentalmente cada vez que passo nas margens desta ribeira.
Três putos, em tronco nu, nadando em cima de uma folha de cortiça... Uma brincadeira só possível num Algarve interior tão cru quanto deliciosamente genuíno.
Nos dias de hoje, os putos de Querença já não flutuam em folhas de cortiça... Existem outras brincadeiras. Mas ainda podem brincar com os apitos de cana que o Tonico da Ribêra faz com tanta habilidade e dedicação, ali nas proximidades.
A beleza natural deste recanto algarvio continua admirável.
E... quando a noite cai e não deixa perceber mais que o contorno da natureza envolvente... é hora de olhar para cima e deixar que o céu mais estrelado que alguma vez se viu nos espante acompanhado do som dos mochos e dos grilos!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Espírito da Ria

Por Ana Serafim
[Jornalista - Lisboa]

O cais de Faro está movimentado, com o entra e sai de barcos-carreira e dos táxis marítimos que levam os veraneantes para as praias da Ria Formosa. Passa pouco das 10h da manhã quando a pequena embarcação de passeios turísticos zarpa. Há que aproveitar a maré baixa para poder observar a biodiversidade local. «Quando a maré sobe, as aves escondem-se. Também optamos por canais secundários ou terciários, que são zonas mais calmas porque os barcos maiores não podem passar e é mais fácil ver a natureza», explica o guia Nelson.
Formando um sistema lagunar que se estende por 60 quilómetros no litoral algarvio – desde a península de Cacela, na Manta Rota, até à Península do Ancão, em Loulé – o Parque Nacional da Ria Formosa é um labirinto de sapais, dunas, ilhotas e canais. Servem de casa a moluscos (284 espécies), peixes (79), répteis (15), anfíbios (11), mamíferos (18) e 214 espécies de aves, que não tardam a dar ares da sua graça.
De binóculos em riste, avista-se uma cegonha branca, imponente, do alto das suas pernas cor-de-laranja, da mesma cor do bico. Pouco depois, surgem os colhereiros, com o seu bico em forma de colher. E ainda uma garça branca pequena. No alto, as andorinhas do mar, de penas brancas e cinzento claro, fazem o seu bailado. Usando a força do corpo, uma faz um voo picado e mergulha de cabeça. Traz um peixe, que uma companheira, invejosa, tenta roubar. Sem sucesso, até que, a pescadora habilidosa aterra no sapal. E partilha a refeição com a adversária.

A zona está coberta de morraça, que submerge quando a maré sobe. A sarcocórnia, a cistanca – que só existe no Algarve, Sul de Espanha e Creta – e a sapeira, também conhecida por lavanda do mar devido ao aroma e à cor roxa das suas flores, compõem o quadro. O toque final é dado pela salicórnia, ou espargos do mar. Afirma o guia que é uma especialidade da Ria, que surge nas zonas de salina, muito apreciada pelos franceses, que já a usam em receitas culinárias gourmet.
Entretanto, uma garça real dá cor ao castanho escuro das terras na zona dos viveiros, onde os viveiristas escavam com pequenas pás, cuidando das suas culturas. «É exactamente como a agricultura. Se não tratarem dos viveiros, ficam sem toda a produção», afiança Nelson. E sublinha que no Parque Natural da Ria Formosa concentram-se 80% da produção de amêijoa do país.


Aqui e ali, vislumbram-se pescadores à procura de isco. Numa cabana verde, duas mulheres concertam uma rede de pesca.
Um senhor mantém-se imóvel, imerso com água até ao pescoço. «Provavelmente tem uma rede numa mão e com a outra vai remexendo a terra do fundo da ria, para apanhar caracóis do mar», adivinha o guia.
À medida que nos aproximamos da ilha da Faro, a existência de casebres e pequenas habitações aumenta. A presença humana começa a fazer parte da paisagem. A circulação de barcos faz agitar a calmaria das águas salgadas.
E é já com terra à vista que Nelson explica: «Na verdade, a ilha de Faro é uma península já que está ligada ao continente pelo Ancão. Seguindo a pé, vamos ter à Praia do Gigi, na Quinta do Lago». Aqui, há várias casas de férias e muitas famílias, a pé ou por água, rumam a banhos nas praias das ilhas da ria, de chapéu-de-sol debaixo do braço. Vêem-se também muitos grupos, de cócoras, lenços na cabeça, a apanhar amêijoa. Alguns já têm baldinhos e sacos de rede bem aviados. Seja para consumo próprio ou para venda, há que tratar do almocinho, antes que, daí a pouco tempo, a maré suba e cubra toda a zona de água. Há pais e filhos a jogar futebol na areia. E também quem faça caminhadas, aproveitando o sol. As crianças apanham estrelas-do-mar e as conchinhas brancas que polvilham a areia.
Vêem-se ostraceiros, que parecem pinguins mas com bico laranja. Um maçarico real esgravata na areia, à procura de petisco, usando o seu bico longo e curvado para baixo. Um fuselo, de tons castanho terra e de bico também comprido mas inclinado para cima, faz o mesmo. E uma rola marinha sobrevoa a embarcação.
«Sintam este cheiro», adverte Nelson. Enquanto, o silêncio se entranha, apura-se o nariz para sentir o odor a terra molhada, a crustáceos e a relva húmida. É o espírito da Ria.


[Adaptação da autora, de texto publicado na Revista Essencial, do Semanário Sol]

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A carroça, os jovens típicos e os turistas

Por Elisabete Rodrigues
[Jornalista, membro do Núcleo do Algarve da Liga Para a Proteção da Natureza]

Há uns 30 anos, já eu estava casada, mas não tínhamos dinheiro para comprar carro, porque ainda estávamos a estudar. Por isso, de vez em quando, o meu marido pedia a carroça emprestada ao avô, atrelava o macho cinzento que se chamava «14» e lá íamos nós acampar, ou à praia ou simplesmente dar uma volta.

Para mim, que sempre tinha andado de automóvel, andar numa carroça era uma experiência divertida, diferente. Mas há 30 anos ainda havia muitas carroças a circular nas estradas algarvias e por isso não era assim nada de muito especial…pensava eu…

Um dia, vínhamos a chegar a Lagoa, montados na carroça, com o «14» no seu passo pachorrento de sempre, quando de repente um carro pára à nossa frente, sai um casal de ingleses, cada um munido da sua máquina fotográfica, e desatam a fotografar-nos, entre gritos de admiração. «So typical!», gritava o homem. «So lovely, a young couple still in touch with tradition!», exclamava a mulher.

Não quisemos estragar a festa aos turistas e lá fizemos uns sorrisos amarelados. Nem valia a pena dizer-lhes que não éramos assim tão, tão tradicionais, nem sequer que um já era formado em engenharia agrícola e o outro estava na faculdade a estudar jornalismo. Isso iria estragar a imagem idílica, de um mundo rural perdido, que o casal de turistas ingleses queria levar para a sua terra.

A estas horas, deve haver algures em Inglaterra, no álbum de férias de alguém, umas fotos de um casal de jovens portugueses muito típicos e muito rústicos. Por acaso tenho pena de não ter uma dessas fotos, porque nunca mais andei de carroça…


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Dia dos namorados

Porque o Algarve também é um destino romântico, não quisemos deixar passar o dia de hoje sem fazer uma pequena homenagem ao Amor.
Para isso escolhemos um texto do poeta algarvio António Ramos Rosa que aqui deixamos.


Não posso adiar o amor
Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio
Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Sabores do Algarve




A nova iniciativa que o Turismo do Algarve vai lançar a partir de 1 de Março começa a ganhar forma!

Já começámos a receber participações dos leitores do Blogue do Turismo do Algarve e já temos confirmadas as participações de alguns dos mais reputados chefs e enólogos.

Preparem-se para o nosso próximo desafio, que está quase a chegar.

E colaborem!

Enviem-nos receitas, sugestões, dicas gastronómicas, histórias de comida, aventuras na cozinha, humor culinário e tudo o que se relacione com sabores algarvios.

Comecem já a procurar nos vossos livros de receitas o prato algarvio a que ninguém resiste.

Pensem comida...

Pensem bebida...

Continuamos a preparar a mesa para receber as vossas dicas.

A festa está quase a começar...