São João p’ra ver as moças
Fez uma fonte n’areia
Mas as moças não vão à fonte
E São João todo ele se anseia
São João divertido, maganão e o-la-ré,
Deixa-me este verão passare
E dá-me noivo São João, dá-me noivo,
Dá-me noivo que eu me quero casare.
São João p’ra ver as moças
Fez uma fonte de prata
Mas as moças não vão à fonte
E são João todo ele se mata.
Nos tradicionais festejos dos Santos Populares, com os seus
arraiais e fogueiras de alecrim e rosmaninho, era comum ouvir-se cantar este
tema e é com ele que aqui evocamos a forma como antigamente se celebrava no
Algarve esta época festiva.
No mês de junho, nas noites de Santo António, São João e São
Pedro, era costume armarem-se mastros que se enfeitavam com murta e rosmaninho
e à volta dos quais se tocava e dançava alegremente. O cheiro do alecrim
queimado identificava essas festas tradicionais em que não se deixava de
acender uma fogueira por cima da qual se saltava dando vivas ao Santo.

As raparigas “casadoiras” divertiam-se tirando as “sortes”.
Essas brincadeiras que relevam do supersticioso consistiam num jogo de
adivinhação e interpretação do futuro através de uma variedade de situações que
elas experimentavam. Muitas dessas “sortes” são referidas em trabalhos de
recolha etnográfica como o “Livro do Alportel” de Estanco Louro, ou como “Um
Algarve outro…” de Glória Marreiros. A sorte das favas, por exemplo, permitia avaliar se o
ano ia ser de abundância ou de miséria. Arranjavam-se três favas, uma sem casca,
outra com metade da casca e uma outra com a casca toda. Passadas nove vezes
pela fogueira eram colocadas debaixo do travesseiro, de onde, na manhã
seguinte, ao acordar, seria apenas retirada uma. Se fosse retirada a fava toda
descascada o significado atribuído era que os próximos tempos seriam de
miséria. Ao contrário a fava toda “vestida” significava riqueza.
O cardo, ou alcachofra, usado nas "sortes"
Muitas das “sortes” estavam associadas ao casamento e as
raparigas encontravam nelas as respostas que queriam sobre quando e com quem
casariam. A queima dos cardos, o derretimento do chumbo ou a sorte da bacia de
água são algumas das versões possíveis para estas brincadeiras onde o
divertimento era mais importante do que a própria crença no resultado.
Quem quiser recordar ou descobrir como se celebravam os
santos populares de antigamente, poderá rumar até Alte, no próximo dia 27 de junho,
onde, no Polo Museológico Cândido Guerreiro e Condes de Alte, decorrerá um
serão
no qual as conversas girarão precisamente à volta das “sortes”.
Entretanto, já este sábado dia 23, há marchas populares para
ver desfilar em Quarteira, num espetáculo grandioso que se tem vindo a impor no
calendário de animação do Algarve e que promete fazer-nos passar uma alegre
noite de São João.
Bibliografia
Algarve : tradições musicais. Faro : Grupo Musical de Santa
Maria ; S. Brás de Alportel : Casa da Cultura António Bentes, 1995-2002
MARREIROS, Glória. Um Algarve outro contado de boca em boca :
estórias, ditos, mézinhas, adivinhas e o mais.... Lisboa : Livros
Horizonte, 1991